O doce ouro da Mata Atlântica
A região cacaueira situada ao sul da Bahia já teve uma prosperidade econômica que dava aos fazendeiros (ou "coronéis") o poder e a soberba de legítimos imperadores, como os que regiam os primeiros povos da Antiguidade a descobrirem as maravilhas do chocolate. Da mesma maneira que na América Central, ainda que por motivos diferentes, o poder esfacelou-se, trazendo a ruína de uma Era. Em território baiano, o grande vilão foi um fungo que até hoje não foi erradicado. Conhecido como vassoura-de-bruxa, tornouse o terror dos fazendeiros, que viram suas safras minguarem das 400 mil toneladas anuais, no final da década de 80, para cerca de um quarto disso na atualidade.
A praga foi determinante para a derrocada da economia da região, em virtude da dependência da monocultura, cujas lavouras são mais vulneráveis a fatores biológicos. Tirando proveito dessa lição, as novas gerações de fazendeiros, com amparo governamental, estão aplicando em suas lavouras princípios que associam equilíbrio ambiental e lucratividade.
A Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira) vem contribuindo com essa mudança através de pesquisas e da implementação de uma lógica diferenciada no aproveitamento do fruto. O objetivo é que o cacau e o chocolate baianos se sobressaiam no mercado internacional a partir de suas qualidades nutricionais e do valor agregado aos produtos orgânicos. De acordo com Raimundo Mororó, pesquisador da Ceplac, as exportações das fazendas certificadas chegam a atingir quase o dobro do valor do mercado interno. "Apesar das variações de câmbio, países da Europa e dos Estados Unidos compram o produto hoje por um valor em torno de US$ 3 mil por tonelada. No Brasil, isto fica por volta de US$ 1.600".
Entre as estratégias para alcançar o diferencial, existem experiências com a produção de chocolate com frutas típicas da Mata Atlântica desidratadas, como jenipapo, cajá e jaca, entre outras que não são nativas mas que se adaptam bem ao habitat, como o cupuaçu. Além de ser atraente pelo sabor exótico, o valor nutricional do produto cresce em virtude das vitaminas e sais minerais presentes nas frutas, atingindo um segmento da população cada vez mais preocupado em consumir alimentos saudáveis e equilibrados. Segundo Mororó, o olhar com relação a esta fatia de consumidores vai além: "Estamos produzindo chocolate com alta concentração de cacau: 56%. O mínimo exigido pela legislação é de 25%. Com isso, obtemos um chocolate mais saboroso e aumentamos a presença dos isoflavonóides, substâncias importantes na manutenção da saúde do sistema cardiovascular".
As pesquisas da Ceplac apontam outros usos para as diferentes partes do cacau, aumentando ainda mais o valor do fruto. Raimundo explica que o chamado "mel" a polpa extraída do cacau fresco é muito rico e serve para a fabricação de geléia, vinho, aguardente e vinagre, além de já ser largamente utilizado para suco. A placenta que prende as sementes, por sua vez, é fonte de cálcio e fibras, podendo ser consumida desidratada. Até a casca se aproveita para ração animal e para a produção de biogás e fertilizantes. "Tentamos trabalhar com energias renováveis e aproveitar todo o potencial do fruto. Vivemos numa região muito rica, que sempre jogou muita coisa fora. Está na hora de mudar esta atitude", completa o pesquisador.