Há tempo para evitar a secessão
Muitos de nossos vizinhos de Pernambuco não se esqUecem da represália de D. Pedra l, em outubro de 1827, incorporando a sua com arca do São Francisco à Bahia, premiando esta província por ter contribuído com homens e armas para que fosse esmagada a Revolução Pernambucana e fuzilados seus líderes, dentre os quais o Frei Caneca. Em cada legislatura, há sempre um representante'do vizinho Estado a reclamar a devolução do sertão do Aléril São Fr.ancisco para Pernambuco.
Frustradas tais tentativas, o deputado pernambucano Gonzaga Patriota apresentou projeto de decreto legislativo objetivando a realização de plebiscito para a criação do Estado do Rio São Francisco, ora aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal. O plebiscito abrangeria 35 municípios, aqueles situados do lado esquerdo do rio, desde o município de Casa Nova, inclusive, até o Estado de Minas Gerais, cujo território integrava, antes da anexação à Bahia, a então coma(cqdo São Francisco, da província de Pernambuco.
Durante mais de século aquela vasta região permaneceu abandonada por nossos governantes, não obstante o prestígio poUtico dós Vianas, dos Marianis, dos líderes Antônio Balbilno e Vieira de Meio, e do jornalista e engenheiro Geraldo Rocha que, rpesmo radicado no Rio de Janeiro, sempre alertou para as poter.cialidades da região, mostrando, entre outras potencialidades, que os muitos rios permanentes que descem da Serra Geral e deságuam no grande rio, em declive acentuado podem irrigar lima grande extensão de terra por simples gravidade.
Somente com Dutra e a criação da Companhia do Vale do São Francisco, e muitos anos depois com o asfaltamento da BR-242, algo foi feito em prol daquele hinterland. A região serviu, apenas, para compor o território da Bahia, como sé fora um peso lançado sobre os ombros de sua cartografia.
Os baianos sempre permaneceram de costas para seu oeste, mas sulistas visionários e empreendedores descobriram o potencial dos serrados e das ricas veredas que se sucedem naqueles rincões, criando um dos mais importantes pólos agrícolas do País. O projeto legislativo despertou; do outro lado do Velho Chico, naturais idéias emancipatórias, especialmente de lideranças da região. Os governos da Bahia sequer conseguiram um porto para escoar a produção do nosso oeste; o Velho Chico encontra-se assoreado é os velhos vapores deixaran de circular; a projetada estrada que JK imaginou ligando Brasília a Fortaleza e cortando aquela rica região nunca saiu das intenções.
A própria BR-242 não merece os cuidados devidos, passando a maior parte do ano esburacada. O aeroporto de Barreiras que poderia centralizar os vôos de parte do norte e do nordeste para Brasília e o Sul do País não tem estrutura e está subutilizado. Tudo isto contribui para as idéias emancipatórias do oeste baiano. Nosso Estado poderá perder uma vasta e próspera região. Sentimos essa perda irreparável, mas devemos reconhecer que, se, lamentavelmente, o fato ocorrer, fomos nós, do litoral, da chapada, do sul e do nordeste os únicos responsáveis por esse desmembramento.
A emancipação do território da antiga comarca pernambucana trará reflexos negativos na economia da Bahia, não fora o sentimento de mutilação, com a perda de uma parte de nosso corpo. Tivéssemos um sistema federalista singular, em que houvesse um forte apoio da União aos municípios (e não aos Estados) não teríamos, certamente, de conviver com as idéias separatistas de regiões e que também ressuscitam o poder das oligarquias locais.
Ainda há tempo para que o governo estadual adote políticas públicas que efetivem e imediatamente incrementem a educação, a saúde e a economia da região do São Francisco, evitando que seja concretizada a secessão, sob pena de termos que amargar a frase ouvida por Boabdil (El Chico), o último Rei de Granada, de sua própria mae: "Você chora como mulher pelo reino que não conseguiu defender como homem".
AUGUSTO ARAS