O sertão vai virar capital

27/08/2007

O sertão vai virar capital


Mudar a- capital do Estado da Bahia é uma idéia aI1tiga. Braz do Amara, em livro publicado, no ano de 1923, após louvar a  primeira Constituição Republicana, que preyia a transferência da capital do Brasil para o Planalto Central, escreveu: "Do mesmo modo os representantes do centro do Estado, na Bahia, fizeram acentuar as vantagens da mudança da capital paia um ponto situado no interior, pouco mais ou menos eqüidistante das suas extremas, e de onde parta a ação governamental, como de um centro para a periferia". Os comentários são breves.

Enfatizam a "necessidadedeolhar para o sertão", pouco favorecido pelas obras públicas no Império. A idéia tem alguns aspectos relevantes e deve ser avaliada como variável relevante no planejatnento de longo prazo do Estado da Bahia. O território circundante de qualquer capital detém em relação às demais regiões do Estado privilégio natural: atrai riqueza. É centro para onde flui poder, recu,rsos e conhecimento. O local da sede de uma capital não é determinismo histórico. Trata-se de perpetuação de vantagenl territorial e como tal comportá: avaliação política. Em Estados com desigualdades regionais a definição da sede é uma variável do planejamento do desenvolvimento.

Na teoria política clássica, o centro do território é indicado como opção preferencial para a escolha da sede. O equilíbrio nas distância$ acentua o papel unificadot da capital, o que ajuda na çomposição de tendênciqs de desagregação' territoriaJ; Brasfiía é um exemplo. Um detalhe puco percebido: o centro administrativo da Bahia foi projetado exatamente no centro do;terdtório do município do Salvador. O poder político costuma Ser associado ao centro do espaço urbano e territorial. Este fato parecê associado â seguinte percepção: o governo é de todos e deve estar eqüidistante de todos.

A indução dos vetores de povoamento é outro aspecto. relevante. A divisão territorial do Estado da Bahia é desequilibrada. No oeste, poucos municípios e grandes territórios; no litoral, muitos municípios, territórios menores. A cidade do Salvador éo centro do
povoamenlo, irradianflo ondas que chegam suaves nas bordas do Estado. Salvador prende no seu ventre e torna filhos da terra sertanejos de todos os cantos. EsSe processo desequilibra a distribuição da população no território: Interiorizar a capital significa criar novos centros dinâmkos de povoamento, o que também ajuda a reduzir a pressão sobre os recursos naturais do litoral.

A construção de uma nova capital significa investimento público e privado com amplo retorno. A melhoria da infra-estrutura decorrente permitirá a consolidação de um eixo logístico entre a nova capital e a cidade do Salvador, favorecendo a movimentação de riquezas através do centro do território da Bahia e a integração com a região centro-oeste.

A migração de conhecimento e riqueza talvez seja o aspecto mais relevante. A fixação de pessoas aptas a contribuírem para o dinamismo econômico é uma conseqüência da mudança do poder político. O interesse delas seria investir em regiões prpmissoras e capazes de oferecer infra-estrutura adequada para viver.

A criàção do Estado de São Francisco tramita no Congresso Nacional. Se aprovada, um pedaço da região oeste iria embora; A integridade do território do Estado da Bahia pode ser favorecida a partir de um gesto político que tenha a clara intenção de equilibrar as distâncias. É um ato de sabedoria política com refl~xos de longo prazo.

A cidade do Salvador é a capital política, econômica e cultural do Estado da Bahia. Ela é soberana na beleza, rica, ainda que rodeada de pobreZ5,l. Quem nasce aqui, não quer sa.ir; quem chega não quer partir; os que partem, querem retomar e aqui viver. É muito para fração tão pequena do território. Os nossos antepassados estavam certos: "é preciso olhar para o sertão". Se não for por razões de equilíbrio geopolítico, que seja para salvar a cidade do Salvador do gigantismo da megalópole que se avizinha.


LUIZ WALTER COELHO FILHO