Oeste quer deixar de ser Além

27/08/2007

Oeste quer deixar de ser Além

A construção da ferrovia leste-oeste, que pretende interligar a região de Barreiras ao Atlântico, e 'a implantação de 300 mil hectares de cana e afins para a produção de etanol são as duas propostas com as quais o governador Jaques Wagner tenta seduzir as lideranças do Além São Francisco, ansiosas que são, por libertar-se da Bahia e ga- . nhar vida própria.

Desde a campanha eleitoral Wagner nunca escondeu sua posição a respeito da criação do Estado do São Francisco: "Sou contra. Pedi a eles um prazo de dois anos para mostrar que vale a pena continuar pertencendo à Bahia". Ganhou bem a eleição na área e já governador contabiliza lá grande parte das suas incursões pelo interior. Mas vai conseguir seduzir a massa?

"É impossível. Se nós desistirmos da luta é capaz de sermos linchados", fala Nascimento Marçal de Jesus, pequeno comerciante e presidente da Fundaf (Fundação de Integração Cul tural e Cidadania do Além São Francisco), a institui ção que lidera as manifestações. populares em favor da criação do Estado do São Françisco. "Somos baianos, não quere~nos ver ninguém falar mal da Bahia, mas não temos sotaque baial1o", diz.

MATERNIDADE - Marçal afirma que o oeste baiano se ressente de longo histórico de abandono, que começa .na história, "não é nem considerado na história da Bahia", invade o campo econômico e culmina até mesmo na denominação geográfica, o 'Além São Francisco', que todos consideram pejorativo. "Botamos o 'além' no nome da Fundaf justamente para ironizar. 'Além' dá uma idéia de quem está nos confins da civilização, algo distante, fora do foco normal. É assim que somos tratados e .nos sentimentos desprezados", afirma.

Segundo ele, a aspiração não vem dos políticos, é um anseio coletivo e histórico. Nos dias atuais, para o conjunto da Bahia, as deputadas Jusmari Oliveira (PR), federal, e Antonia Pedrosa (PRP), adversárias ferrenhas, engalfinham-se entre si aparentemente disputando 'a maternidade da criança', mas Marçal observa que não é bem isso. "Elas e os demais políticos; não estão'à frente daluta. Estão atrás. Ou correm atrás ou ficam mal com a população".

ESPELHO - O discurso do ex-deputado Siqueira Campos, fundador do Tocantins, Estado criado comaparte norte de Goiás, 18anos atrás, joga lenha na fogueira. Diz ele que na época do desmembramento a área de Tocantins representava pouco mais de 1 % do PIB goiano. ."Se fosse reintegradO hoje, representaria 40%". O exemplo do território vizinho aduba as aspirações emancipacionistas do oeste.

"Eu, que muito conheço aquela área de tanto andar lá no lombo de um bUlTo, sei bem o que era e no que ela se transformou. Temos um espelho bem ao lado", fala o prefeito de Barreiras, Saulo Pedrosa (PSDB), também presidente da União dos Municípios do Oeste Baiano (Umub), para afirmar que, no que depender da vontade dos 31 municípios baianos que englobam os 172 mil quilômetros do território baiano que ficam do outro lado do rio São Francisco, a eman cipação já teria acontecido há muito tempo. 

Com dois deputados federais cuja base principal é lá, José Rocha e Jusmari Oliveira, ambos do antigo PFL que migraram para o PR, e dois estaduais, Antonia Pedrosa e Aitur Maia (PMDB), têm pouca representatividade política. Conta Saulo que as queixas são generalizadas. Além da infra-estrura logística deficitária, o que Jaques Wagner tenta suprir com a ferrovia leso. te-oeste, a região sofre demandas de toda sorte.

CLAMOR - "Para se ter idéia, até a construção de um presídio regional aqui virou um clamor. Na cela da delegacia cabem 19 presos. Tem 168. É um absurdo. Eu nem piso lá", observa Sa.ulo, gar;mtindo que a ampliação do aeroporto e a instalação de uma unidade do Corpo de Bombeiros são demandas nunca resolvidas. Na região como um todo, os prefeitos viveni sob intensa pressão do Ministério Público para construir matadouros a fim de conter o abate clandestino. "As prefeituras não têm recursos e a Bahia não dá as respostas que todos querem. Vivemos assim", diz.

Saulo lembra que o oeste baiano é maior do que Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe juntos. O PIE é quatro vezes mai.s forte do que Estados como Acre e Rondônia. "No que depende dos cidadãos dos 31 municípios do oeste há muito tempo já seríamos um Estado,diz o prefeito de Barreiras, com 140 mil habitantes, virtual capital do Estado que se pretende criar.

LEVI VASCONCELOS