Proposta de criar novo Estado é “coisa de lunático”, diz Faeb
Irresponsável, oportunista, abominável. Estes são alguns dos adjetivos de representantes de classes produtivas baianas para definir o projeto de Decreto Legislativo 384/2003, que propõe a criação do Estado do Rio São Francisco, a partir do desmembramento do oeste da Bahia. Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), João Martins, a proposta de divisão do Estado não é vantajosa para ninguém. “Tudo isso está sendo provocado por grupos políticos lunáticos, que querem se promover”, critica.
O presidente da Associação Comercial da Bahia (ACB), Eduardo Castro, também ataca o deputado pernambucano Gonzaga Patriota (PSB-PE). “De patriota, ele só tem o sobrenome, porque ele só quer tirar território baiano. Temos que alertar a sociedade e as classes políticas de maneira suprapartidária e impedir que essa idéia absurda evolua”, defende.
Apesar de o oeste estar em expansão hoje, João Martins lembra que há cerca de dois anos a região enfrentou crise séria. “Quem sustentou a região foi o resto do Estado. E se isso vier a ocorrer outra vez? Qual lado da economia vai sustentar uma nova situação caótica?”, adverte.
O presidente da Faeb se refere à crise da agricultura de 2004 e 2005, quando o câmbio desfavorável desestimulou a produção e os produtores acumularam prejuízo ao ser obrigados a vender os produtos com valor inferior ao pago pelos insumos. O clima desfavorável também comprometeu o desempenho do período, levando à queda na safra.
ECONOMIA FRÁGIL – “Não quero nem acreditar que isso vai adiante. Se a região tivesse uma economia consistente para sustentar a criação de um novo Estado, tudo bem; mas a economia de lá ainda é frágil. Além disso, a Bahia não pode ser dividida”, defende João Martins.
A discussão em torno da criação do novo Estado retira da memória propostas anteriores, como a idéia de separação da região do cacau, que daria origem ao Estado de Santa Cruz. “O novo Estado seria rico porque era a época de pujança do cacau, que anos depois entrou em decadência. Se aquilo já era uma loucura, essa agora do São Francisco é ainda maior”, afirma o presidente da Faeb.
O mesmo diz o presidente da Associação Comercial da Bahia (ACB), Eduardo Castro. Ele lembra que a entidade de classe é a mais antiga das américas, com 196 anos de atividade, e foi uma das lideranças no movimento de rejeição à criação do Estado de Santa Cruz. “A Associação teve papel preponderante na liderança da campanha contra o desmembramento da região do cacau. E, se naquela época a ACB já se manifestava contra, hoje é muito mais”.
Para Eduardo Castro, a receita atual do oeste é insuficiente para bancar a criação de uma máquina burocrática para atender o novo Estado. “E é bom lembrar que o atual governo tem se mostrado altamente preocupado com a região, com investimentos já previstos para atender à logística da região”, diz. O presidente da Faeb lembra que além da agricultura, a pecuária é o segundo segmento da economia da região, cujo rebanho representa 20% do total do Estado. “O que há na região além disso? Não há indústria que dê consistência à economia”, aponta.
“No momento em que todo mundo está tentando unir para vencer, eles querem dividir?”, questiona. “Faremos o que for possível para efetivamente impedir essa abominável proposta. Senão amanhã irão querer separar o Nordeste do Brasil, o Sudeste do Brasil, ou seja, vamos fragmentar tudo.
A Bahia tem uma identidade que não se divide. Os empresários de outros Estados que vieram para a região também são contra essa proposta. Essa idéia só gera uma explosão de indignação em qualquer baiano que ama a Bahia”, comenta Eduardo Castro. Cerca de 85% do Produto Interno Bruto (PIB) do extremo Oeste Baiano é composto pela economia do agronegócio. Os grandes destaques são a produção de grãos (principalmente soja), e algodão, além da expressiva pecuária bovina, cujo rebanho representa 20% do Estado.
DANNIELA SILVA