Movimento visita barragens

28/08/2007

Movimento visita barragens

Caravana inspeciona reservatórios para mostrar que RN tem água em abundância

Mostrar que o Rio Grande do Norte possui abundância em água reservada e a transposição não levará benefícios ao estado foi o objetivo da visita que a Caravana em Defesa do Rio São Francisco e do Semi-Árido – Contra a Transposição fez ontem à barragem de Assu, no município de Ipanguaçu, Rio Grande do Norte. O equipamento é um dos reservatórios que receberá água transferida do Velho Chico, segundo o projeto da transposição, elaborado pelo Ministério da Integração Nacional.

“A barragem tem uma comporta que libera de 14 a 26 metros cúbicos de água por segundo desde 1982. A transposição vai levar um oitavo disso. Não vai ser nem notado”, afirmou o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, João Abner – também integrante da caravana. O professor observou que, na região da barragem, existem pequenos agricultores que necessitam de cisternas (capta água da chuva) para abastecimento e produção.

Segundo Abner, com o projeto, o Brasil vai “exportar” água do rio através dos produtos agrícolas que serão cultivados com o resultado da transposição visando ao mercado externo.
Entretanto, o professor entende que nem este segmento terá benefícios com a obra. Com os custos em energia que a transposição requer, a água será encarecida em cinco vezes, afirma o professor.

“A transposição vai ser um presente de grego para todos”, brincou ele, destacando que o Rio Grande do Norte já está entre os maiores produtores de camarão do país sem a transposição. O professor acredita que ou o consumidor dos grandes centros urbanos bancará os custos de manutenção da obra, ou o agronegócio também ficará inviabilizado. “É por isso que o governo fala que a obra vai atingir 12 milhões de pessoas.  Essas são as pessoas que pagarão a conta”, disparou.

Presente ao ato promovido pela Caravana, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ipanguaçu, Severino Cosme Xavier, que não revelou posição sobre o projeto federal, elogiou o debate que vem sendo proposto pela caravana. “Nunca tivemos isso aqui. Acho que devem ser esclarecidos os malefícios e benefícios da obra”. Ele contou que a Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Rio Grande do Norte (Fetarn) debaterá a questão entre os dias 11 e 14 do próximo mês, quando pretende se posicionar.

Morador no entorno da barragem de Santa Cruz, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Apodi, Francisco Edílson Neto, se irrita ao falar da transposição, traçando um paralelo com o ocorrido com a barragem de Santa Cruz, construída há cinco anos. “Se fosse para beneficar os camponeses, eles fariam um projeto de desenvolvimento econônomico para os pequenos agricultores”, raciocina. O sindicato enviou uma comitiva própria a Ipanguaçu para se associar com a caravana nacional.

No final da tarde de ontem, a caravana visitou projetos agrícolas em Mostro (RN). A Caravana em Defesa do Rio São Francisco e do Semi-Árido – Contra a Transposição foi iniciada no dia 19 e já passou pelo Distrito Federal, onde foi recebida pelo vice-presidente da República, José Alencar. Realizou debates em Belo Horizonte (onde começou), Rio de Janeiro, São Paulo e Natal. Hoje visitam a Barragem de Castanhal, em Limoeiro do Norte (CE). Em São Paulo e Rio Grande do Norte, não conseguiu falar com os governadores José Serra (PSDB) e Filma Faria (PMDB), respectivamente.

“Buscamos representantes do governo federal para apresentar o projeto de transposição. No governo estadual, não havia ninguém que conhecesse o projeto de forma a defendê-lo”, declarou o professor Manoel Lucas, da disciplina comunicação e meio ambiente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

“Considerando o Relatório de Impacto Ambiental (Rima) incompleto e outras irregularidade, o projeto fere a Constituição, por isso é inconstitucional”, afirmou a promotora do Ministério Público de Minas Gerais, Lusitana Imaculada de Paula, durante o debate na universidade.