Restrição pode se espalhar pelo País
Prefeito de Rio Verde tenta influenciar colegas a aderir à limitação da área da cana e envia lei para 46 cidades
O setor sucroalcooleiro pode começar a ficar preocupado com a promoção da lei patrocinada pela prefeitura de Rio Verde. O município começou a dar consultoria para outras cidades para mostrar como funciona a lei que impõe limites para as áreas de cana-de-açúcar. No total, 46 municípios já receberam uma cópia da lei ou recepcionaram membros da prefeitura para participar de palestras e debates sobre como frear a cultura canavieira.
Somente em São Paulo, a prefeitura de Rio Verde encaminhou cópia da medida para 27 cidades. Entre os municípios está Ribeirão Preto, capital da cana de açúcar e base de grandes grupos sucroalcooleiros do País. Muitas cidades da nova fronteira canavieira do Estado de São Paulo também tiveram acesso ao documento, como Barretos, Bebedouro, Catanduva e Presidente Prudente.Segundo o prefeito de Rio Verde, Paulo Roberto Cunha (PP), esta será a maneira pela qual o município tentará influenciar a discussão sobre a organização agrícola das cidades.
VÁCUO LEGAL
Segundo o supervisor de conservação da ONG ambientalista WWF Brasil, Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, a iniciativa de Rio Verde chamou a atenção porque ocupa um imenso vácuo de legislação do País. "Rio Verde pegou um tema que está totalmente fora do radar das prefeituras e do poder público como um todo. É muito relevante a decisão da cidade em mostrar a disposição de ordenar a paisagem agrícola", aponta Scaramuzza.
O próprio ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, deu declarações sobre a necessidade premente de se desenvolver um zoneamento agrícola para o País. A falta desse ordenamento deixou, segundo o ambientalista, a organização da produção agrícola nas mãos do mercado, da evolução ou involução de um determinado produto.
"Não é por acaso que a agricultura enfrenta ciclos de alta e de baixa. Isso é conseqüência direta da falta de organização da produção. Sem isso, não há como frear os ciclos de euforia que invariavelmente provocam períodos de forte depressão", pondera Scaramuzza.
A novidade na lei de Rio Verde é exatamente essa: criar um modelo econômico sem hegemonias. Desde que a lei foi aprovada, em dezembro do ano passado, Rio Verde já aprovou a implantação de 15 mil hectares de cana-de-açúcar para abastecer a única usina local, a Decal, uma ex-produtora de cachaça que produzirá álcool combustível.
Segundo o prefeito, existe um segundo projeto de mais 20 mil hectares em curso. Cunha avalia que, em projetos médios, será possível ter até três usinas em Rio Verde.
Para usineiros, expansão ocorrerá sobre os pastos
Cerca de 30% da expansão da cultura da cana em Goiás ocorrerá em áreas ocupadas por culturas de grãos, afirma o Sindicato das Indústrias de Fabricação de Álcool do Estado de Goiás (Sifaeg). "Cerca de 70% da expansão da cana em Goiás será feita em áreas de pasto. A cana não significa ameaça para o setor de grãos", diz Igor Montenegro, presidente do Sifaeg.
Hoje, Goiás tem um canavial de 290 mil hectares, suficiente para abastecer 18 usinas, que, juntas, processam 23 milhões de toneladas. Em quatro ou cinco anos, a previsão é que a área de cana atinja 600 mil hectares, 2% da área agricultável do Estado. O sindicato alega que esse território é muito inferior a área de grãos, que ocupa pouco mais de 3 milhões de hectares.
"É preciso entender que o avanço da cana em Goiás também está relacionado a problemas de rentabilidade dos grãos", argumenta Montenegro. Nos últimos 3 anos, problemas como a ferrugem asiática, a valorização do real e o custo dos insumos comprometeram a situação financeira dos produtores. Neste ano, a situação parece ter se invertido. O preço pago aos produtores pela tonelada de cana caiu em relação a 2006.
Cassio Bellintani Iplinsky, um dos donos da Usina Decal, de Rio Verde, tem planos de elevar a capacidade de moagem para 1,5 mil toneladas. Para ele, a lei é uma imposição que desconsidera o mercado. "Falam da monocultura da cana, mas o que existe hoje é a monocultura do grão."