Pequenas e médias usinas na mira de grandes investidores

29/08/2007

Pequenas e médias usinas na mira de grandes investidores

As usinas de açúcar e álcool de pequeno e médio portes, que antes estavam relegadas a segundo plano no processo de concentração do setor sucroalcooleiro, começam a despertar o interesse de fundos e bancos de investimentos. De olho nestes investidores, essas usinas estão acelerando seu processo de reestruturação para atraírem esses parceiros ricos. 

A AIG Capital Investments, que tem participação no frigorífico Mercosul, está em conversas com usinas para se tornar sócia minoritária. Marcelo Aguiar, diretor da AIG, diz que boa parte das usinas do setor ainda está "inflacionada", apesar das atuais quedas dos preços do açúcar e do álcool no mercado internacional, mas mesmo assim o setor continua "fashion". "Estamos de olho em usinas menores, que ainda não foram consolidadas e que têm esse potencial." 

Os gestores de recursos Darby (americano) e Stratus (brasileiro) se uniram para criar um fundo de investimento em participações (FIP) na área de infra-estrutura. O Valor apurou que o capital potencial que deverá ser comprometido é de R$ 400 milhões. Um dos focos desse FIP é investir em logística para álcool, que inclui projetos de alcoodutos e também tancagem do produto em terminais portuários. 

Com exceção das usinas maiores, que aceleraram seu processo de profissionalização e foram para a bolsa, boa parte de grupos sucroalcooleiros ainda herda passivo tributário e trabalhista da forte crise que assolou o setor nos anos 90. A briga entre os acionistas envolvendo sucessão nas usinas também é muito comum no setor. 

A BDO Trevisan tem em sua carteira de clientes cerca de 50 usinas sucroalcooleiras interessadas em promover reestruturação financeira para atrair novos investidores. "Muitas usinas de pequeno e médio portes estão interessadas em arrumar a casa porque sabem que neste processo de expansão do setor elas serão engolidas", diz Henrique Campos, diretor de auditoria da Trevisan. "Os usineiros começam a entender que no mundo dos negócios as empresas têm que se modernizar. Não importa onde elas estejam." 

Em julho deste ano, o braço de investimento do Goldman Sachs negociou uma participação de cerca de 17% na Santelisa Vale SA, empresa criada a partir da fusão entre as usinas Santa Elisa, Vale do Rosário e outras unidades produtoras. No início do ano, durante o processo de fusão dessas usinas, os fundos de investimentos Gávea, do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e o GG Investimentos, do ex-ministro do Planejamento, Antonio Kandir, tinham sondado negociar participação nessas usinas. 

Embora o maior interesse do setor financeiro pelo setor sucroalcooleiro seja inegável, há quem tenha decidido estrategicamente ficar de fora do movimento de investimentos em usinas. "Olhamos com preocupação esse segmento. Há um volume alto de produção de álcool sem que se tenha contratos de longo prazo de fornecimento. Ainda não há regulação, falta logística, não se sabe direito o papel da Petrobras e a ligação do preço do álcool com o do açúcar e da gasolina é um fator complicador", diz Octavio Castello Branco, sócio da Pátria Investimentos. Para ele, os preços das usinas também estão em patamares elevados. 

A Pátria decidiu não investir em usinas, mas considera interessante a logística para escoamento do álcool. Além disso, a empresa de administração de recursos, por meio de seu fundo de investimento Pátria Energia, uniu-se a dois parceiros - o americano Eton Park e um FIP do Banco Bradesco de Investimentos - em uma empresa que se destina a produzir energia elétrica limpa, a Ersa. A expectativa é de que as usinas térmicas a partir de biomassa (bagaço de cana, casca de arroz e cavaco de madeira) respondam por 20% do portfólio da Ersa, que pretende investir R$ 2 bilhões nos próximos cinco anos. 

"Podemos comprar o bagaço de usineiros de médio e pequeno porte, fazer investimentos ao lado da usina e fechar um contrato para vender o vapor e a energia gerada para o usineiro", explica Castello Branco. Segundo ele, as térmicas a partir de biomassa têm direito, inclusive, a créditos de carbono. 

MÔNICA SCARAMUZZO E RAQUEL BALARIN