Plantio Direto é a volta da sustentabilidade agronômica

03/09/2007

Plantio Direto é a volta da sustentabilidade agronômica

 

Aquestão ambiental é apontada pelo especialista em Plantio Direto Márcio Scaléa como o principal motivo para que os produtores não apenas desenvolvam suas plantações em um solo bem preservado, como também não sofram penalidades dos órgãos ambientais por conta do assoreamento de rios e poluição de nascentes. “Sem o revolvimento do solo do PD, muitos desses produtores encontraram vantagens econômicas”, destaca. Nesta entrevista à repórter Mir iam Her mes, o consultor fala sobre a importância da técnica para a região do cerrado.

A TARDE | Como o senhor define Plantio Direto e como conheceu o sistema? 
MÁRCIO SCALÉA | Há cinco fundamentos: eliminação das operações de preparo de solo; uso de herbicidas dessecantes; obtenção de cobertura morta; plantio com máquinas específicas; praticar a rotação de culturas. Conheci o sistema em 1972. No início, era apenas curiosidade, mas percebi as vantagens do sistema para a agricultura e me aprofundei no tema.

AT | Qual a importância do PD para os ecossistemas? 
MC | O PD revela-se um ecossistema semi-aberto, pois nele ocorrem trocas com ecossistemas vizinhos (coloca-se adubo, semente, retira-se produção, produz-se palha).

Mas tudo dentro da procura, não do equilíbrio perfeito da mata, mas da sustentabilidade viável agronômica e economicamente entre seus componentes. A rotação de culturas, o cultivo de espécies para cobertura e produção de palhadas, a integração entre agricultura e pecuária, tudo leva a uma boa reciclagem dos minerais e à manutenção e até melhoria da matéria orgânica, representada pela sua decomposição lenta e gradual, produzindo ácidos orgânicos de cadeia longa, mais estáveis e menos solúveis.

AT | E qual seria o resultado? 
MC | Consegue-se, com isso, a reativação da biomassa, que passa a interceptar a chuva de forma eficiente, estocando água no solo, alimentando o lençol freático, regularizando o fluxo de nascentes e rios, eliminando a erosão. É a volta da sustentabilidade agronômica, representada pela diminuição das perdas minerais e principalmente de matéria orgânica e pelo melhor desfrute da água disponível, que traz consigo o retorno à sustentabilidade econômica.

AT| OquediferenciaoPDdocultivo tradicional? 
MC | Na abertura de novas áreas para plantio, a agricultura acaba por desalojar as matas nativas, preparando os solos para o cultivo de alimentos. Análises mostram que nos sistemas convencionais tradicionalmente usados, com base em operações de preparo de solo com arados e grades, estabelecese um ecossistema totalmente aberto: há muitas e grandes trocas com ecossistemas vizinhos, o que leva a um forte desequilíbrio entre os seus componentes básicos (mineral e orgânico). Esse desequilíbrio leva à perda de minerais (P, Ca, K, Mg, por erosão ou lixiviação), conseqüência também da baixa reciclagem. Mas o que talvez seja pior (por ser muito mais difícil de repor) são as perdas de matéria orgânica: a cada preparo de solo toda a massa vegetal ali presente é picada e enterrada, vindo a ser prontamente atacada por microorganismos do solo, gerando, em última análise, gás carbônico e vapor de água, que se perdem para a atmosfera.

Essa perda de matéria orgânica gera uma biomassa cada vez mais escassa, que não é eficiente em reter e infiltrar a água das chuvas, causando erosão.

AT | Quais os principais entraves para a expansão do PD? 
MC | Aproduçãodepalhadaearotação de culturas. Os agricultores, de modo geral, têm certa relutância em fazer programas de rotação de culturas por serem especialistas em uma única lavoura: ou em milho, ou em soja, ou em feijão, ou em algodão.

Quando ele precisa plantar uma cultura diferente, acaba esbarrando em alguns problemas estruturais, como o escoamento da produção ou o mercado que, em algumas regiões, não remunera o suficiente para um tipo específico de cultura.

AT | Faça uma análise do sistema de integração lavoura/pecuária e quais as culturas que podem ser adaptadas a este sistema? 
MC | A integração lavoura/pecuária via Plantio Direto vem resolver as duas questões que atrapalham o PD, já citadas acima: a dificuldade de formação de palhada e a rotação de culturas, mesmo que seja temporária. A brachiária, utilizada em rotação de cultura com o milho, por exemplo, produz palha e ainda permite que a pecuária se viabilize, com pasto para o gado.

AT | Quanto de solo se perdecom a erosão eólica e pluvial/ano? 
MC | A questão da erosão eólica é difícil de avaliar, pois é um problema mais qualitativo do que quantitativo.

Não é o tanto de solo que se perde, mas a qualidade de nutrientes que se perde com o solo descoberto, que perde a umidade e dissemina problemas, como o nematóide da soja. Em relação à erosão hídrica, a perda de solo é muito grande. De acordo com o pesquisador da Universidade Federal do Mato Grosso Eduardo Guimarães Souto, em um estudo de 1988, a cada tonelada de soja produzida em Mato Grosso se perdem 13 toneladas de solo por hectare.

AT | O que o motivou a escrever o livro sobre Plantio Direto [também lançou a cartilha Integração Lavoura-Pecuária e Renovação de Pastagens em Plantio Direto]? 
MC | Durante mais de 30 anos de trabalho na área, fui acumulando informações e vendo a evolução do PD nas regiões agricultáveis de todo o País. Acho que é o momento de colocar à disposição do público informações que não conseguiria passar em dias de campo e palestras que são de extrema importância para a sustentabilidade da agricultura, em uma época em que tanto se fala de meio ambiente.

Márcio Scaléa | Consultor, engenheiro agrônomo e especialista no sistema Plantio Direto na Palha

“O Plantio Direto leva à reciclagem dos minerais”