Emergência em 90 municípios

21/09/2007

Emergência em 90 municípios

 

Mais de 20% dos municípios baianos, a maioria localizados nas regiões norte, nordeste, sudoeste e oeste do Estado, estão em situação de emergência por causa da seca. Dos 417 municípios, 90 deles já tiveram o decreto de Situação de Emergência reconhecido pelo governador Jacques Wagner, que encaminhou a relação à Secretaria Nacional de Defesa Civil solicitando ajuda em alimentos e carros-pipas.

A Secretaria Nacional de Defesa Civil, do Ministério da Integração Nacional, está enviando para a Bahia 52.377 cestas básicas de alimentos,  que serão distribuídas aos municípios afetados, sob a supervisão das coordenadorias regionais e estadual de Defesa Civil e coordenação pelo Exército. Até esta quinta apenas os municípios de Curaçá (a 593 km de Salvador, e Campo Alegre de Lourdes (a 820 km da capital), tiveram o decreto reconhecido pelo governo federal. Outros oito municípios, na região que fica entre Paulo Afonso e Juazeiro, são abastecidos por carros-pipas, sob supervisão do Exército.

No início do mês, o governador Jacques Wagner assinou os últimos decretos de emergência para os municípios de Chorrochó, Cafarnaum, Lapão, Jaguarari, Formosa do Rio Preto, Macururé, América Dourada e Bom Jesus da Serra. Pelo decreto, cujo período de vigência varia de 90 a 180 dias, os municípios passam a receber ajuda em carros-pipas e cestas básicas, com 22 quilos divididos em sete itens cada (arroz, feijão, açúcar, leite em pó, macarrão, óleo e farinha).

Chuvas - A seca deste ano está sendo considerada, pela Superintendência de Recursos Hídricos do Estado uma das piores das últimas décadas. Segundo os dados da SRH, apresentados no seminário nacional que reuniu coordenadores de Defesa Civil de vários Estados, em Salvador, a Região Norte da Bahia teve 56% de chuvas abaixo da média histórica, afetando muito a produção agrícola de sequeiro.

Na Chapada Diamantina, onde além da seca há o risco de queimadas, o déficit de chuvas foi de 5% no período chuvoso, também com grande perda na agricultura. Na porção semi-árida do Sudoeste do Estado, as chuvas foram dentro da média. Já na região do São Francisco e no Cerrado (Oeste), choveu 42% abaixo da média histórica.

Formosa do Rio Preto espera por ajuda do Estado

Cerca de dez mil pessoas já sofrem os efeitos da seca em Formosa do Rio Preto, no oeste do Estado. A quantidade chega quase à metade da população do município, a 1.030 km de Salvador. Apesar de a prefeitura haver decretado situação de emergência em julho, até ontem não havia recebido os esperados recursos dos governos federal e estadual para atender as 50 comunidades atingidas pela estiagem na zona rural.

O presidente da Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Assentamento Pavão/Boa Vista, Antônio Alves de Barros, 58 anos, diz que a situação de muitas famílias “está de fazer dó, porque colheram, em média, 20% do que esperavam, e grande parte está sobrevivendo de cesta básica da prefeitura”. O assentamento fica a 45 km do centro da sede do município e, de acordo com Uilton de Souza, 20, uma vez por semana eles recebem água distribuída em carro-pipa.

A água, porém, eles utilizam apenas para beber e fazer comida. Para higiene, usam a retirada de cacimbas que ficam nas baixadas, no leito dos rios secos, geralmente salobra – com excesso de sais e outras substâncias que a tornam de sabor desagradável e imprópria para o consumo humano.

O produtor Ezequiel Ribeiro, 72, afirma que do milho que plantou perdeu tudo. “Da mandioca, que era para fazer 30 sacas de farinha, só deu 11. Se não fosse minha aposentadoria, a gente estava passando fome”, diz, acrescentando: “Representantes do governo do Estado prometeram abrir um poço na comunidade do Largo, a 18 km da sede, mas até agora nada fizeram”.

Assim, confessa o prefeito Manuel Afonso de Araújo (PMN), fica difícil administrar o município, “diante da calamidade que se instalou com a redução da chuva e perda quase total da lavoura da agricultura familiar”.

Drama afeta produtores em Juazeiro

Na comunidade de Cipó, a 50 km do centro de Juazeiro (a 500 km de Salvador), cerca de dez famílias vivem o drama da falta de água para consumo, mesmo estando a pouco mais de 2 km do distrito de Juremal, abastecido pela adutora da Mineração Caraíba. Os moradores conseguem água em um poço artesiano ou levada em carros-pipa. Assim, o lamento é geral: “Se não chove e a prefeitura não envia carros, ficamos sem água dias e dias”.

Para Carlos Nunes Pereira, presidente da Associação Agropastoril de Cipó, a situação já foi pior, antes do poço, que opera com um motor a diesel.

Mas, se o poço tivesse bomba elétrica, ajudaria muito, e a água seria mais forte”, ressalta. A água retirada do poço, aberto em 1980, serve para consumo humano, mas não é ideal. “Não chove aqui desde março, e isso dificulta mais a nossa vida. As autoridades precisam olhar para nossa região e ver as dificuldades que enfrentamos com a falta de água”, afirma Pereira.

Com cerca de 30 associados, a entidade que ele preside tenta encontrar alternativas para mudar a realidade da população dessa área da região norte da Bahia, que, a exemplo de muitas outras, sofre com a estiagem, mesmo com a proximidade do Rio São Francisco ou adutoras construídas ao longo das comunidades.

Para eles, o que mais atrapalha é a falta de vontade demonstrada pelos políticos em resolver situações críticas que poderiam ser modificadas com “um braço de canal puxado da adutora” que abastece outros povoados.

Caatinga

A economia local é a criação de caprinos, não existem plantações, já que a ausência de água impossibilita mais essa alternativa de trabalho rural. Os produtores fazem o possível para trazer água até os animais que não encontram lagoas no meio da caatinga, que está casa vez mais cinzenta, dominando os pequenos e raros espaços verdes encontrados ao longo do caminho.

Com o catavento parado pela falta de água no poço, Almir Nunes Pereira puxa a corda do balde com as próprias mãos, a fim de tentar conseguir um pouco de água para os animais.

“Se tivesse água aqui, nós poderíamos até plantar capim para a criação, e todo mundo teria mais uma chance de trabalho e não passaria por tanta dificuldade”, conta o produtor rural, de 48 anos.

Pereira possui 300 cabeças de caprinos e, para alimentá-los, precisa de cerca de 3 mil litros de água, que obtém fazendo até oito viagens diárias em uma carroça, com carga de 400 litros de água em tonéis. “Além de procurar água para os animais, temos que nos preocupar e andar ainda mais e trazer para a família”, explica. Na mesma comunidade, Francisco do Nascimento, 67, luta diariamente na tentativa de alimentar seu rebanho. Agora, no fim dos recursos hídricos disponíveis, ele abre caminho até uma barragem para facilitar o acesso dos animais.