Arroz alterado precisa de menos água
Cultura ancestral e principal fonte de alimento para mais da metade da população mundial, os campos de arroz exigem até três vezes mais água do que outros cultivos, como trigo e milho. Mas um grão geneticamente modificado criado em cooperação por pesquisadores internacionais promete agora reduzir o consumo do recurso e garantir a plantação mesmo em períodos de estiagem ou escassez.
O novo grão mostrou-se capaz de crescer e obter biomassa 50% maior do que outras variedades de arroz mais comuns tanto em condições de abundância de água quanto durante a seca.
Estima-se que a produção de arroz consuma até 30% da água usada para a agricultura. A maior eficiência nesse consumo traria tanto benefícios socioeconômicos - com a chance de expandir os campos para áreas com menos chuvas - quanto ambientais.
Batizado de HARDY devido ao gene enxertado, o novo grão foi obtido por meio de técnicas de engenharia genética e a mesclagem de genes de uma família de plantas conhecida como Arabidopsis, da qual também fazem parte a couve-flor e a mostarda, com os do grão de arroz Nipponbare japonica.
- Existem centenas de grãos de arroz diferentes no mundo. O Nipponbare japonica não é uma variedade comercial, mas cresce em regiões mais frias no Japão, Europa, Estados Unidos e até mesmo no Brasil - explica Andy Pereira, professor do Instituto de Bioinformática da Universidade da Virgínia. - Nosso grão geneticamente alterado é a primeira variedade de arroz com um enxerto de gene conhecido.
De acordo com Pereira, a variedade HARDY consegue obter o mesmo tamanho que a Nipponbare japonica usando entre 20% e 50% menos água.
- Durante a seca, por usar menos água, o HARDY chegaria mais lentamente ao estágio em que é afetado pela falta do recurso, crescendo mais do que as plantas não-alteradas. Por ser mais tolerante, também não morreria tão rapidamente como as plantas comuns. - sugere Pereira. - Então, caso a seca aconteça durante a fase de desenvolvimento de folhas, um grão HARDY será mais perfeito que um grão corriqueiro. O desenvolvimento do arroz geneticamente modificado levou um ano. Nesse período, os pesquisadores enxertaram o gene no grão da variedade Nipponbare japonica e produziram um punhado de sementes para seguir o rastro genético.
- Mas antes disso foram três anos para identificar e isolar o gene HARDY, presente nas Arabidopsis, e descrever suas qualidades - completa Pereira.Para selecionar o gene que aumentaria a resistência do arroz à seca, os pesquisadores vasculharam o DNA de um grande número de espécies da família Arabidopsis. O HARDY, uma mutação, foi encontrado graças ao seu efeito nas plantas: deixava-as com folhas menores e verde-escuras e mais difíceis de serem arrancadas do solo. Testes moleculares e físicos nesses exemplares revelaram o ganho de eficiência no uso de água.
- Nos concentramos em genes já ligados pela comunidade científica a processos biológicos ou funções específicas. Ao fazê-lo, pudemos nomear grupos gênicos comandados pelo HARDY, cujos níveis se alteravam conforme a disponibilidade de água - revela Pereira.