Sisal de Valente dribla a crise e ganha mercado

15/10/2007

Sisal de Valente dribla a crise e ganha mercado

 

Como os trançados de uma corda ou de um tapete, a vida está tecendo com fios fortes e fracos o futuro da Associação de Pequenos Produtores do Estado da Bahia (Apaeb). Criada para revitalizar o agronegócio do sisal, na década de 80, a entidade, que se transformou em referência no setor, ao longo de duas décadas, está agora dependendo de R$ 8,5 milhões para se equilibrar e continuar alinhavando o destino de cerca de três mil famílias sertanejas.
Famosa pela fábrica de tapetes que possui em Valente, a 240 km de Salvador, na região sisaleira, a Apaeb cresçeu muito graças aos dólares do mercado internacional. Mas agora enfrenta uma crise exatamente em função das exportações, tendo em vista a acentuada queda do dólar em relação ao real, que começou há quatro anos.
Mesmo assim, a associação, nascida em uma região lembrada pela miséria, foi o único fabricante de tapetes de sisal presente na recente National Floor Show, feira realizada na Inglaterra mês passado. O estande baiano foi um dos mais visitado, abrindo perspectiva de incluir os ingleses na lista de consumidores internacionais.
A desvalorização do dólar, entretanto, faz a Apaeb ampliar o mercado interno. É um redimensionamento como meio de superar a queda de receita, que chega a R$ 9 milhões, ocasionada, nos últimos quatro anos, pela queda do dólar, que despencou de R$3,90 para R$ 1,80.
além dessa ampliação do mercado interno, estudamos a possibilidade de oferecer ao mercado externo os tapetes acabados, e não mais em rolo, como fazemos hoje. O produto acabado pode ser vendido por praticamente o dobro no exterior, compensando as perdas cambiais", diz o diretor"executivo da Apaeb, Ísmael Ferreira.
Atualmente, a fábrica de tapetes da associação exporta 75% da produção. A meta é uma drástica inversão, ou seja, vender para o exterior apenas 20%. No mercado interno, o maior consumidor dos tapetes é São Paulo. No exterior, Holanda e Alemanha, Chile, Argentina e Uruguai.

Concorrência

Ismael Ferreira frisa que, além da questão cambial, a concorrência da China também é uma ameaça à produção de tapete de sisal no Brasil. "Os chineses dependem muito de nós para fazer negócios no setor. Eles importam a tonelada de fibra boa por US$ 750, enquanto aqui o produtor vende a US$ 500, além das despesas com frete e taxas de importação, e conseguem vender o tapete mais barato no mercado internacional, em razão dos incentivos e da mão-de-obra barata na China", lamenta.
A fábrica da Apaeb em Valente não chegou ao extremo de demitir funcionários, e mantém os 600 empregos direitos. Mas já suspendeu dois dos quatro turnos de seis horas de trabalho, gerando queda de 30% na produção.
A defasagem cambial aumentou de R$ 1,9 bilhão, em 2003, para R$ 7,8 bilhões ano passado. O pagamento de juros saltou de R$ 2,2 milhões para R$14 milhões, no período, enquanto o faturamento subiu de R$ 10,5 milhões paraR$48,3 milhões, revela a Apaeb.
Os números mostram que o projeto da Apaeb, diz Ferreira, é viável economicamente, porém a entidade está sem capital próprio. "Precisamos dos R$ 8,5 milhões para saldar dívidas e retomar todo
o processo produtivo. Apaeb tem função social, com o agronegócio do sisal, a caprinocultura, a agricultura familiar, com capacitação e assistência técnica, que beneficia cerca de três mil famílias".

Alternativas para enfrentar a desvalorização do dólar

A desvalorização do dólar está causando dificuldades ao agronegócio do sisal. Os exportadores, que são a ponta do setor, estão empregando duas alternativas imediatas para enfrentar a crise: aumento dos preços no mercado externo ou redução dos preços pagos aos fornecedores, segundo informações do administrador de agronegócios Enaldo Boaventura, diretor de exportação da M.Rosa Fibras Ltda.
Outras duas saídas, mas a longo prazo, seria urn melhor
aproveitamento da planta e uma maior valorização no conceito de utilização da fibra. Na região sisaleira da Bahia, o beneficiamento do sisal desperdiça 96% da planta" Os 4% aproveitados são a fibra retirada da Agave sisalana perrine, nome científico dessa planta nativa do México"
Baaventura ressalta que a alternativa de aumentar os preços
está praticamente esgotada, uma vez que os valores praticados no exterior já estão quase no limite, devido ao aumento do valor médio do produto em 9,3%, somente no período de janeiro a julho de 2007, chegando a US$ 875 por tonelada.
Já a redução nos preços pagos aos beneficiadores e,conseqüentemente, aos produtores, preocupa toda a cadeia produtiva.
As indústrias reduziram as quantidades de compra, e os preços  de R$ 0,98 a R$ 1,02 kg, pagos para o sisal beneficiado, já estão abaixo do mínino estipulado pelo governo federal, que é de R$ 0,99/kg para o sisal a granel e de R$ 1,1 O/kg para beneficiado.
 Boaventura elogia a política da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que, frisa, tem reajustado positivamente o preço mínimo do sisal há quatro anos, acumulando um aumento em torno de 120%. (E.B.)

Qualidade do produto é o termômetro de negócios

A alternativa de maior valorização da qualidade do sisal é considerada fundamental para a ampliação dos negócios no mercado externo. Enaldo Boaventura, da M. Rosa Fibras Ltda,  argumenta que a demanda pelo sisal no exterior continua constante e trata-se deumproduto biodegradável e ecologicamente correto.
"Nossa empresa identificou um nicho de mercado nos países do Oriente Médio, Rússia, e, por incrível que pareça, na África, que é o principal concorrente do Brasil em termos de qualidade, no Quênia e Tanzânia. Esses países passam por dificuldades nos campos e na produção", salienta.
Boaventura destaca que o beneficiamento do sisal pode também proporcionar a extração do suco, que significa 54% da planta; da mucilagem, 32%; e da bucha, que representa 10% do beneficiamento.
"Os empresários e o governo devem visar os novos usos do sisal e
subprodutos na indústria automobilística, farmacêutica, moveleira e construção civil, aproveitando-o de forma integral", sugere. A cultura sisaleira encerrou 2006 em 12° lugar em importância na economia baiana, pois as exportações superaram segmentos como café, algodão, frutas e calçados, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. (E.B.)