Indústria desenvolve materiais de subprodutos do boi
Engana-se quem pensa que do boi só não se aproveita o berro. O som emitido pelo bovino também é utilizado em gravações musicais para filmes, novelas, animar festas de peão Brasil afora e pelo boiadeiro, que, ao toque do berrante, conduz o rebanho no estradão.
São 49 segmentos industriais que dependem dos subprodutos bovinos. As crinas e pêlos servem para fazer escovas. Os cascos e chifres são usados em artesanato. A mucosa do bicho vai para a indústria de laticínios, para a fabricação do coalho. O couro, além de cintos, bolsas e sapatos, dá origem à gelatina neutra, usada na indústria alimentícia na fabricação de mariamole, chiclete, suspiros, recheios, coberturas, iogurtes, sorvetes e cremes, dentre outros. Desfeito este mito, o boi se firma como um dos poucos animais no mundo com 100% de aproveitamento, o que faz o município de Itapetinga, tradicional capital da pecuária, a 560 km de Salvador, pensar na implantação de indústrias de transformação. Uma delas é a de biodiesel a partir do sebo bovino, mas, por enquanto, o sonho esbarra em entraves burocráticos, ambientais e na falta de incentivos fiscais e de políticas públicas. Comrestrito mercado comprador interno, parte dos subprodutos, como o sebo, tem outro destino, senão ao de atender às grandes indústrias. É o que tem feito o grupo Bertin, que mantém em Itapetinga o Mafrip, maior frigorífico do Norte e Nordeste.
“Marginal”
De olho no sebo bovino, considerado produto “marginal” pela indústria até pouco tempo, o grupo tem apostado na agora “vedete”, cujo preço praticamente duplicou com a demanda bioenergética. O quilo do sebo é negociado por R$ 1,10 a R$ 1,20 em São Paulo, valor que há um ano era de R$ 0,65 e, há dois, de R$ 0,50. Em vez de Itapetinga, sede do frigorífico nordestino do grupo, a primeira usina de biodiesel produzido a partir de sebo bovino foi para Lins, interior de São Paulo. A fábrica, maior usina de biodiesel de sebo bovino do mundo, tem capacidade produtiva de 100 mil toneladas de biodiesel, ou 110 milhões de litros. Segundo a direção da empresa, a planta poderá atender a 14% da demanda nacional de biodiesel, considerando-se a mistura obrigatória de 2% do biocombustível ao diesel a partir de 2008. A maior parte do biodiesel produzido será vendida ao mercado e a outra, utilizada por máquinas agrícolas, caminhões e ônibus do grupo. Hoje, o Bertin consome 120 mil toneladas de sebo bovino por ano, metade de produção própria e outra adquirida de terceiros na divisão higiene e limpeza.
Mercados
E não é somente o sebo bovino que deixa o solo baiano para alimentar a economia em outros Estados. O couro bovino, largamente utilizado pela indústria calçadista, de confecção e de transformação, é um dos carroschefes, seguido de partes como mocotó, bílis e vassoura da cauda e pêlos.
“A maioria dos subprodutos que sai de Itapetinga abastece todo o mercado nordestino e até São Paulo”, reforça o presidente do Sindicato Rural de Itapetinga, Newton Andrade. Alguns países também conhecem o produto nacional por meio do Bertin.
“Tudo que sai do frigorífico vale dinheiro, mas, infelizmente, não temos uma indústria de transformação”, lamenta Andrade, que vê nessa possibilidade a oportunidade de a região atrair outras empresas em torno do empreendimento.
“O pecuarista poderia agregar mais valor ao subproduto, sem falar na geração de emprego e renda para a microrregião”, frisa, e classifica o frigorífico como uma casa de desmonte, “onde as peças são fornecidas para as indústrias”.
Importância
Com base na assertiva de que a pecuária e o abate de bovinos, além de gerarem riquezas e empregos diretamente, contribuem sobremaneira para o funcionamento de diversos outros setores, a gerente executiva do Serviço de Informação da Carne (SIC), Fabiana Aviles, profetiza: “Se o abate de bovinos for suspenso, haverá paralisação direta de 49 dos mais variados segmentos industriais”, atesta a gerente. A SIC é uma organização não-governamental (ONG) brasileira que tem por objetivo informar sobre as características, a qualidade e os benefícios do consumo da carne bovina. O endereço da ONG é www. sic. org. br