Produção de alimentos ameaçada

30/10/2007

Produção de alimentos ameaçada

 

Não há consenso sobre os riscos para a produção de alimentos no Brasil com o avanço do biocombustível.

Relatórios recentes do Banco Mundial (Bird) e da Organização das Nações Unidas (ONU) trazem alerta aos países em torno da questão. O Brasil, porém, não enfrentaria esse problema segundo autoridades do governo.

Para o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, o Brasil está livre de problemas alimentares e ambientais que possam ser provocados pelo crescimento da produção de biocombustíveis. O País, hoje, produz cana-de-açúcar em 6 milhões de hectares de terras.

Para os outros produtos, ainda restariam mais de 300 milhões de hectares agricultáveis, “sem tocar em um palmo de floresta”, disse.

Rezende calcula que até 2015 a cana deve ocupar 20 milhões de hectares, o que seria suficiente para o Brasil atender a 10% da demanda mundial de etanol.

Segundo o ministro, o que ocorre no País é um esforço pelo melhor aproveitamento de pastagens e terras subutilizadas com culturas voltadas ao biocombustível. “O Brasil já foi citado na imprensa internacional como modelo na produção destes combustíveis, por incrementar a atividade sem comprometer a produção de alimentos”, argumenta Rezende, referindose a reportagem publicada na última edição da revista americana National Geographic.

Falta Pesquisa

 A avaliação do ministro não é compartilhada pelo pesquisador Edélcio Zigna, coordenador do grupo de trabalho de agricultura da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip). Estudos da entidade falam em falta de pesquisas mais amplas de impacto e mapeamento, considerando as variáveis sociais, agrícolas e ecológicas, para delimitar claramente áreas onde os efeitos da monocultura da cana, do milho e de óleos vegetais seriam minorados.

“O biocombustível está agravando a concentração de renda no Brasil. O produtor de matéria-prima é apenas um elo a mais numa cadeia enorme, dominada por grupos transnacionais que substituem mão de obra por culturas mecanizadas”, criticou Zigna.

O especialista da Rebrip avalia, entretanto, como um exagero a tese de que a atividade alcooleira vai agravar a fome mundial. Segundo ele, o problema é provocado mais por dificuldade de acesso que por insuficiência na quantidade. Mas Zigna aponta possíveis prejuízos nutritivos com a alta de preço dos alimentos: “A população pobre urbana é que pode ser mais prejudicada.

Se hoje ela já come mal, deve ficar pior. Os restaurantes populares e cestas básica estão longe de atingir 60% dos brasileiros que vivem em situação de miséria”.

Pesquisa

 Uma pesquisa desenvolvida pela Rebrip ao longo do ano de 2007, em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sobre a influência dos biocombustíveis na agricultura, está sendo concluída e deve ser divulgada no próximo mês. A idéia da entidade é levar o estudo a debates nas Comissões de Meio Ambiente e Agricultura do Congresso Nacional.

A Rebrip, informou Edélcio Zigna, é favorável proposta de moratória apresentada na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no sentido de se frear temporariamente a expansão mundial dos biocombustíveis.

Para ONU, regulação cabe a cada país

Para as Nações Unidas, cabe aos países criar políticas reguladoras para a produção de biocombustíveis. “Qualquer atividade econômica traz riscos, e cabe aos governos adotar as medidas regulatórias adequadas para minimizá-los e maximizar as oportunidades”. A frase, do representante da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO) na América Latina, José Graziano, resume a posição entidade a respeito da expansão mundial dos biocombustíveis.

Dois relatórios recentes, das Nações Unidas e do Banco Mundial, apontam riscos para a produção de alimentos com o avanço da produção de álcool.

Graziano avalia que os riscos de comprometimento no Brasil são mínimos, pela grande disponibilidade de terras e água.

O mesmo não acontece em outros países da América Latina, onde os recursos naturais são mais escassos.

Por isso, a FAO recomendou aos países do continente cinco políticas específicas: ordenamento territorial, pesquisas tecnológicas, regulamentação da cadeia produtiva, melhoramento de relações contratuais e nova matriz de transporte.

“As medidas garantem que a produção dos biocombustíveis cresça em conformidade com princípios de desenvolvimento sustentável”, justificou.

Em relação aos recentes documentos da ONU e do Banco Mundial, José Graziano relativiza o impacto da expansão dos biocombustíveis sobre o preço dos alimentos: “O ajuste de preços é temporário. e sofre a influência de outros elementos.

Atualmente, o aumento progressivo da demanda chinesa e indiana por alimentos e as pertubações climáticas ocorridas nos últimos dois anos também são determinantes”, avaliou.