Santa Catarina experimenta uma nova técnica para recuperar área degradada
Uma nova técnica de recuperação de áreas degradadas começa a ser colocada em prática por empresas de Santa Catarina. O setor florestal vem encabeçando um movimento que substitui o tradicional plantio ordenado de mudas por uma técnica que tem como base a chamada nucleação. Essa técnica consiste, em linhas gerais, em criar um núcleo de vida na área degradada, atraindo animais ao local, e deixando que o próprio ambiente se recrie ao longo do tempo, com pouca interferência do homem.
O professor Ademir Reis, do departamento de biologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem sido o embaixador dessa técnica no Estado, que acabou sendo adotada neste ano pelos procuradores do Ministério Público Estadual nas sugestões de recuperação dos Termos de Ajustamento de Conduta para diferentes setores, desde as empresas de carvão aos produtores de arroz, que assim como o setor florestal, devem recuperar áreas de preservação permanente, próximas a rios.
"Sugerimos essa técnica, que pode ser complementada por outras", diz Rogério Castro, assessor técnico do centro de apoio do Ministério Público Estadual. Segundo ele, praticamente todas as mineradoras de SC têm passivo ambiental, e mais da metade dos produtores de arroz. Ele viu nessa forma de recuperação qualidades como sistema simples, custo mais baixo e pouco auxílio técnico.
O novo processo de recuperação tem como premissa que os animais são vitais para o sistema evolutivo das florestas tropicais. Ao atraí-los para áreas degradadas, trazem sementes para polinização e recriam o ambiente próximo ao que ele já foi, com o mínimo de interferência do homem. "Trazê-los significa trazer a vida que está faltando no local, acionando o gatilho para que a natureza se recupere sozinha", diz, destacando que 90% das sementes dependem dos animais.
Reis defende que o sistema tradicional, que planta mudas e deixa a floresta limpa e organizada, comum em áreas de recuperação, não é adequado porque não forma no local uma comunidade de plantas (produtores), decompositores (microorganismos) e consumidores (animais), e diz que alguns projetos feitos dessa forma no Brasil há 20 anos não deram resultados satisfatórios e começam a ser repensados.
A nucleação usa "artifícios" em uma porção de 5% da área degradada. No local, são feitas pequenas transposições de solo, são construídos abrigos para fauna e são colocados poleiros artificiais - galhos secos que servem de local de pouso para pássaros - para que depois os animais conduzam o processo de recuperação para os demais 95%.
Entre os que começaram a usar a técnica está o grupo Battistella. Ulisses Ribas Júnior, diretor florestal da empresa, diz que houve mudanças na legislação a partir dos anos 80, ampliando a distância que os cultivos de pinos deveriam estar de faixas ciliares, de 5 metros para 30 metros. Com isso, a empresa teve de se readequar.
(Ribas Júnior) conheceu a técnica de nucleação em 2000, e segundo ele, a Battistella deve concluir o processo de recuperação até 2011. A técnica foi aplicada em 270 hectares e faltam 300.
O projeto de recuperação levou a Battistella a pensar em criar, no longo prazo, uma empresa só para a área de venda de serviços de recuperação ambiental. "A idéia é caminhar para isso".
A nucleação, de acordo com Reis, pode demorar mais tempo do que a técnica tradicional para ocupação completa da área com vegetação, mas ele crê na sua maior sustentabilidade. As pesquisas em SC, no entanto, ainda não levaram o prazo estimado de 25 a 30 anos para comprovação completa de sua eficácia. O que se sabe, de experiências que já foram iniciadas, é que as áreas estão respondendo bem aos primeiros processos. Ele destaca que um hectare onde há quatro anos havia pinos, por exemplo, já há 48 espécies diferentes de árvores crescendo, cujas sementes foram trazidas por animais.
Outras empresas também estudam a aplicação da nucleação. A Renova, de Rio Negrinho, que recupera entre 40 e 50 hectares por ano, segundo Mármonn Nadolny, engenheiro florestal, deve usar pelo menos parte da técnica no seu cultivo. Está em análise projeto que não faz intervenção na área degradada, usando "banco de sementes do próprio solo". Ele diz que nesse caso a empresa retira o pinos e faz o controle para que essa espécie não germine, dando espaço para que outras que estão no solo germinem.
Para Daniel Caetano Oller, analista ambiental do Ibama-SC, a técnica da nucleação tem apresentado resultados excelentes em áreas que passaram a usá-la há cerca de dois anos. Ele, porém, diz que não é contra o plantio de mudas tradicionais e considera que as técnicas devem ser pensadas segundo as características de cada área, podendo a muda ser uma alternativa em locais em que não há uma fauna ao redor da área degradada, o que seria fundamental para o processo da nucleação proposto por Reis.