Os desafios que o etanol tem de enfrentar
6 de novembro de 2007 - No setor sucroalcooleiro, só terá chance quem tiver escala e dominar a logística. Em artigo anterior, citei os lobbies dos agricultores americanos e das petrolíferas e a nossa infra-estrutura como barreiras às exportações do etanol. Não obstante os discursos das autoridades, o PAC não deslancha e a situação se agrava: estradas desintegrando-se, portos caros e obsoletos e malha ferroviária ridícula, ou seja, estamos à beira de um apagão logístico. Tal situação, acrescida da carga tributária escorchante, prejudica todo o setor produtivo e aumenta, ainda mais, o "custo Brasil".
O etanol já venceu, com sucesso, a primeira fase que foi o mercado interno com os carros flex. A segunda - a das exportações em grande escala - é a mais crítica, visto que em médio prazo já teremos um excedente de mais de 12 bilhões de litros.
O setor sucroalcooleiro, muito pulverizado, continua desarticulado e seguirá a tendência natural de outros, ou seja, será concentrado em, no máximo, dez grandes grupos nacionais e estrangeiros. Estes, a sua vez, terão que: a) formar uma grande trading; b) criar um padrão internacional (porcentagem de concentração) para o etanol; e c) botar a mão no bolso e começar a investir pesado na infra-estrutura, como alcooldutos, ferrovias, hidrovias e portos. Se os empresários ficarem esperando as ações do governo, as exportações do etanol ficarão empacadas e todo o setor estará fadado ao fracasso. Que não se enganem: neste ramo só sobreviverá quem tiver escala (acima de 4 milhões de toneladas de cana), dominar a logística e for capaz de garantir a entrega firme do produto.
Além do mais, o etanol brasileiro tem de enfrentar o lobby dos agricultores americanos, algumas ONG e as petrolíferas. Estas últimas continuam poderosíssimas e vivem criticando o etanol. É óbvio que elas não vão querer ter concorrentes para um filão que ainda vai durar dezenas de anos. Os agricultores, por seu lado, estão aglutinados na poderosa National Corn Growers Association (NCGA), que dita a linha dos subsídios para o cereal e defende a taxação do etanol brasileiro em US$ 0,54/galão. De acordo com o Global Subsidies Iniciative, no período 2006-2012 o etanol de milho receberá subsídios anuais entre US$ 6,3 bilhões e US$ 8,7 bilhões e o biodiesel, entre US$ 1,7 bilhão e US$ 2,3 bilhões.
No outro front, o da produtividade, o governo americano está apostando alto na hidrólise para aproveitar a celulose do sabugo de milho, palha e até gramíneas que possa produzir etanol. O Departamento de Energia dos EUA já deu a largada e anunciou em 28/02 que vai gastar nos próximos quatros anos a "pequena" soma de US$ 385 milhões para construir seis instalações industriais utilizando a hidrólise para produzir 130 milhões de galões de etanol celulósico, objetivando produzir 35 bilhões de galões de etanol em 2017.
O Brasil, com muito menos recursos e uma vez mais contando com a garra dos nossos cientistas, também está pesquisando a fabricação do etanol através da hidrólise do bagaço, e os resultados têm sido alvissareiros, pois podemos sair da atual produção de 80 litros por tonelada para 300 litros; levará algum tempo para chegar a nível industrial, mas acontecerá.
No entanto, os americanos, já na vanguarda da hidrólise, também vão aumentar, e muito, a produção, e sua dependência de países produtores como o Brasil será relativa. Os EUA, declaradamente, não estão a fim de depender "de áreas instáveis" no tocante à energia (na América Latina, o discurso antiamericano de Chávez, Morales e Correa pode prejudicar o etanol brasileiro). Ademais, os americanos têm capital de sobra e muita tecnologia para resolver os seus problemas de energia, e na hora certa eles terão a solução e não ficarão na mão de ninguém. Quem apostar nas superimportações de etanol dos EUA, mesmo via Caribe, vai se dar mal.
Assim sendo, o Brasil terá que buscar outros mercados potenciais como o do Japão, da China e dos países-membros da União Européia (já interessados), mesmo porque, com a sobretaxa de US$ 0,54/galão, o nosso etanol perde competitividade. Ao contrário do que alguns "apressadinhos" alardeiam, o Brasil está muito longe de ser a "Arábia Saudita do etanol", pois o nosso energético ainda tem muitos desafios a serem vencidos. Será "necessário montar uma estratégia e formar bons profissionais especializados em diplomacia empresarial, que saibam vender nossos produtos para o mundo" (Marcos Troyjo, Gazeta Mercantil, 29/11/05). Produtos de boa qualidade técnica, aliada às boas práticas sociais de governança. Assim, seria interessante que toda a administração federal, inclusive o presidente Lula, utilizasse somente veículos flex na sua frota. Existe melhor exemplo de diplomacia empresarial do que esse?