ABLV sugere que leite com soda pode ter sido exportado
Atingidas em cheio pelas denúncias de fraude no leite investigadas pela Polícia Federal, as indústrias do produto longa vida partiram para o ataque ao sugerir que parte do leite adulterado com soda cáustica poderia ter sido dirigida à exportação.
O presidente da Associação Brasileira do Leite Longa Vida (ABLV), Wellington Silveira Braga, levantou ontem, durante seminário sobre exportação de lácteos, a hipótese sobre uma eventual contaminação dos embarques. "Se o destino desse leite que estava contaminado com soda cáustica foi para um outro local que não seja o leite longa vida, pode-se correr o risco de ter ido para alguma empresa que esteja exportando, criando uma dificuldade", disse à Agência Brasil. "Um caso isolado, podendo afetar todo o mercado internacional do Brasil". A ABLV representa 27 indústrias, nacionais e multinacionais, além de centrais cooperativas.
A afirmação suscitou uma forte reação das indústrias exportadoras. "Os testes para as mercadorias de exportação são os mais rigorosos do país. O comprador também faz testes na chegada do produto. Jamais seria possível que isso ocorresse. Ele está delirando", rebateu o diretor-executivo da Confederação Brasileira de Cooperativas de Laticínios (CBCL), Paulo Bernardes. Questionada sobre as declarações, Silveira Braga esclareceu, via assessoria, que a ação da Polícia Federal inibiu a eventual contaminação das exportações.
Em meio às acusações mútuas, industriais e produtores de leite acreditam que a crise pode até resultar em um saldo positivo no médio prazo. Desde que as fiscalizações do ministério não parem no meio do caminho e sirvam para, efetivamente, inibir a rentável fraude econômica no setor lácteo. "Isso foi um caso isolado. Tem ladrão em toda parte do mundo. Mas isso indica um caminho para a melhoria do setor", diz Paulo Bernardes. O produto brasileiro, segundo ele, goza de "extremo respeito" aqui e no exterior e o Ministério da Agricultura utiliza as melhores ferramentas para evitar casos como o identificado em duas cooperativas de Minas Gerais.
O coordenador de Integração para Exportação do ministério, Daniel Amin Ferraz, disse, no seminário, que a situação pode realmente prejudicar as vendas externas. "Com certeza, é um problema sério. Ninguém pode imaginar que uma situação dessas vai passar de alguma forma impune e despercebida no mercado, porque não vai".