Flores, sorrisos e renda em Mucugê

19/11/2007

Flores, sorrisos e renda em Mucugê

Acreditar e persistir. A frase pode soar para alguns como um daqueles conselhos impressos nos milhares de livros de auto-ajuda que servem de guia para muita gente, mas, para Vera Lúcia Oliveira Souza, as duas palavrinhas significaram a sua independência e, sobretudo, a sua sobrevivência e a dos seus dois filhos pequenos.

A agricultora, que nasceu e se criou no povoado de São Pedro, no município de Mucugê, na Chapada Diamantina, passou a vida tentando arrancar da terra seca do semiárido baiano a sua subsistência, rotina comum a milhares de agricultores que vivem nos grotões deste enorme País. Mas, um dia, técnicos do governo apareceram por lá com uma idéia que nunca havia passado pela cabeça de nenhum dos pequenos produtores rurais da região: cultivar flores.

Além de Vera Lúcia, outros 57 agricultores decidiram apostar na idéia. Mas as dificuldades eram muitas. Do total, apenas 16 permaneceram na cooperativa que foi criada para dar força ao negócio.

Todos os dias, Vera cruza os 5 km que separam sua casa da sede do projeto Flores da Bahia para colocar a mão na terra e garantir a renda que sustenta sua família. O programa, criado pelo governo do Estado em 2003, deu tão certo que foi implantado em outros municípios baianos, como Morro do Chapéu e Maracás.

Os produtores da cooperativa de que Vera Lúcia faz parte faturam entre R$ 8 e R$ 10 mil por mês.

Quando são retirados os custos de produção e as despesas da sede, como água, luz, telefone e a parte do fundo de reserva que serve para manter o capital de giro, cada um assegura renda média mensal de cerca de R$ 500 por mês.

Cronograma
 
Numa área de apenas quatro hectares, os cooperados mantêm um cronograma de colheita que não falha nunca.

“Quando retiramos uma parte, a outra já está pronta para ser colhida na semana seguinte”, disse, orgulhosa, a cooperada Vera. Lá, na bela sede do projeto, todo o manejo é feito como mandam as técnicas de plantio e orientado por um técnico da EBDA. A Cooperativa de Flores de Mucugê é hoje motivo de orgulho do grupo de pequenos agricultores que produzem as mais diversas flores que são comercializadas no Estado.

“Mandamos para Salvador, Vitória da Conquista e Feira de Santana”, conta a cooperada. Na área, são cultivadas rosas de cinco cores diferentes (brancas, vermelhas, salmão, amarelas e cor-de-rosa), além de gérberas, crisântemos etc.

Toda semana, mais 350 dúzias de rosas, 200 maços de crisântemos e mais 200 de gérberas são embalados cuidadosamente e transportados para as praças de consumo num caminhão refrigerado, que pertence à cooperativa.

“Nos períodos de festas, chegamos a enviar mais de mil dúzias de rosas por semana”, afirmou Vera, explicando que, para garantir a quantidade, utilizam a câmara fria que instalaram na sede do projeto para conservar as flores. Também no terreno, são produzidos vasos de espécies diversas e folhagens como cipestre e murta, muito procuradas pelas floriculturas para compor os arranjos florais.

Abandono

 A produtora Vera Lúcia afirma que as pessoas que deixaram o projeto em diferentes etapas se arrependeram e, muitas delas, pediram para voltar. “Agora não dá mais. Enfrentamos muitas dificuldades e resistimos. Agora que o projeto deu certo querem voltar. Não concordo”, defende.

Se, para quem experimentou o processo e desistiu no meio do caminho, as cancelas se fecharam, agora a adesão depende do consenso dos cooperativados.

Sandra de Oliveira passou pelo crivo do grupo e há cinco meses está na cooperativa. “Este é um projeto vitorioso e que tem muito futuro pela frente”, afirma, enquanto retira as folhas secas de um dos vasos.

Lá é assim mesmo, todos trabalham duro, mesmo durante um dedo de prosa.

Diversificação

Para ajudar nas despesas locais, o grupo decidiu aproveitar parte do terreno para cultivar hortaliças, tanto para o autoconsumo como para comercialização na feira. Além disso, construíram um lago artificial onde criam peixes em cativeiro.

“Temos diversas espécies, de carpas a tilápias. Tanto consumimos como vendemos”, aponta Vera Lúcia para o lago. E, para quem pensa que a diversidade neste pequeno pedaço de terra acabou, Vera apresenta orgulhosa a mais nova fonte de renda da turma: uma plantação de morangos. “Estamos na segunda safra e o morango faz o maior sucesso por aqui”, disse ela, que vende uma caixinha com a fruta, diga-se de passagem, de boa qualidade, a R$ 5.

Os pequenos produtores investem no futuro. No planejamento estratégico para o ano que vem, a atividade deixará de se concentrar apenas na terra e ganhará o espaço virtual. “Vamos fazer um site para divulgar nosso negócio e assim as pessoas não só conhecerão nosso trabalho como poderão encomendar as nossas flores”, planeja Vera Lúcia. Enquanto o site não entra no ar, a cooperativa atende pelo telefone 75 3338 2186.

A crença e a persistência de Vera Lúcia e da cooperativa são muito mais que lição de auto-ajuda. É o resultado de muito trabalho e de muito amor pela terra.