Miséria e morte nos canaviais
Anualmente, nos períodos mais secos, geralmente entre abril e outubro, centenas de lavradores baianos deixam suas roças de subsistência, no sudoeste do Estado, e rumam para São Paulo com o objetivo de trabalhar no corte da canade-açúcar. Eles viajam na esperança de trabalho farto e dinheiro suficiente para dividir com a família, que fica na terra natal, à espera da ajuda. Mas muitos não voltam e acabam vítimas de doenças próprias do trabalho nos canaviais.
Um dos que não retornaram foi Manoel Neto Pina, 34 anos, natural de Caturama, a 815 km de Salvador.Com a família passando necessidade, ele deixou a lavoura de subsistência e foi tentar a sorte no corte da cana no interior paulista. Mas sofreu uma parada cardiorrespiratória, morreu no Hospital de Catanduva e foi sepultado em Palmares, no interior paulista.
Dois outros baianos do sudoeste, Lindomar Pinto Rodrigues, 27 anos, natural de Mutãs, distrito de Guanambi, a 798 km de Salvador, e Edilson Jesus de Andrade, 28 anos, natural de Tapiramutá, a 330 km da capital, que tomaram o rumo em direção a São Paulo, encontraram final desastroso nos canaviais do Sul do País. Segundo dados da Pastoral do Migrante, que atua há 20 anos na região de Ribeirão Preto (SP), Lindomar foi mais uma vítima de parada respiratória, morreu em Terra Roxa e seu corpo foi trazido para a Bahia.
O lavrador de Tapiramutá Edílson de Andrade morreu no dia 11 de setembro e, conforme estatísticas da pastoral paulista, foi a 22ª vítima, entre 2004 e setembro deste ano, e a quinta morte de retirantes baianos na região paulista este ano sob suspeita de excesso de esforço físico. Ele começou a trabalhar no corte de cana aos 17 anos e há 10 vivia em Guariba com a mulher e duas filhas, de 2 e 4 anos.
Normalmente, o cortador trabalha das 7 às 17h, com uma folga semanal, que muitas vezes não aproveita, estimulado pelo pagamento dobrado por tonelada colhida. Na avaliação da professora aposentada da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Maria Aparecida de Moraes e Silva, que acompanha o trabalho dos cortadores de cana-de-açúcar há 30 anos, esse é um artifício das usinas para fazer com que o cortador trabalhe. De acordo com a professora, são pagos ao cortador R$ 2,50 por tonelada colhida, e os bóias-frias têm uma meta a cumprir.
“Eles planejam cortar de 12 a 15 toneladas por dia, carga de trabalho que vem crescendo nos últimos anos, se comparada com as da década de 1990, quando eram exigidas 10 toneladas diárias, e de 1980, de 5 a 8 toneladas”, explica. Um estudo da Unesp de Araraquara revela que a “vida útil” dos cortadores de cana no Estado de São Paulo é de 15 anos. Muitos começam aos 18 anos e aos 34 anos não podem trabalhar mais, nem mesmo em outras profissões, devido ao esforço despendido.
Para suportar a sobrecarga de trabalho, os bóias-frias consomem bebida alcoólica e crack. A pesquisadora Maria Lúcia Ribeiro, que coordena a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos em São Paulo, relata que a droga “surge como forma de enfrentar o insuportável”. Para o padre Antônio Garcia, da Pastoral do Migrante, o crack se alastrou no campo como opção ao sofr imento.
Esperança
A lavradora Joanira Silva Assunção, 44 anos, é uma das que aguardam com ansiedade a visita anual do marido Hélio Rodrigues dos Santos, 44 anos. O casal é de Mutãs, mas o elevado índice de desemprego no pequeno distrito de Guanambi “expulsou” o lavrador para os canaviais de Terra Roxa, há quatro anos. Para amenizar a saudade do companheiro, dona Nira, como gosta de ser chamada, gasta intermináveis minutos contemplando a única fotografia que o marido enviou pelos Correios. “Esse aqui é o meu marido”, aponta dona Nira.
Sozinha na Bahia, ela cuida do lar, da castigada lavoura de feijão a 5 quilômetros de casa e dos três filhos.
As adversidades não são obstáculos para ela. “Se fosse por mim, ele ficava aqui, mas é o jeito. Deus quis assim, assim está sendo, porque o emprego que tem aqui é pouco e só os conhecidos da fábrica têm lugar”, observa. A fábrica em questão é uma empresa que produz óleo de algodão e emprega 42 pessoas.
Todos os anos, o distrito de Mutãs, com aproximadamente cinco mil moradores, assiste à partida de 10 ônibus lotados de bóias-frias para o corte de cana no sudoeste do País. Entre fevereiro e maio, pelo menos 400 homens deixam as famílias e embarcam em veículos clandestinos, pagando R$ 110 por cabeça.
Um percentual dessa leva de trabalhadores braçais também sai de Igaporã (a 802 km de Salvador) em ônibus fretados por intermediários. O interior paulista é o maior foco de atração dessa mão-de-obra agrícola temporária, especialmente a macrorregião de Ribeirão Preto, onde se concentra o maior número de usinas e destilarias do Estado de São Paulo.
“Nos últimos dias, mais de 20 ônibus saíram daqui levando trabalhadores para o corte de canade-açúcar e coleta de laranja no Mato Grosso e São Paulo”, relata o prefeito Deusdete Fagundes de Brito.
Trabalhadores são confinados em barracos
De acordo com a irmã Inês Facioli, da Pastoral do Migrante, só em março de 2007 saíram oito mil trabalhadores migrantes da região do sudoeste baiano (Guanambi, Brumado e Caetité) para o corte da cana nas usinas de São Paulo.
Ela informa que nas visitas da pastoral, em 20 municípios da região de Ribeirão Preto, foram encontrados trabalhadores migrantes confinados em barracos urbanos em condições precárias e insalubres. Em Icém, há aproximadamente 60 moradias de trabalhadores migrantes de Guanambi e Palmas de Monte Alto.
Em Pontal, foram visitadas moradias de trabalhadores migrantes provenientes de Parateca, Rio de Contas, Botuporã, Livramento, Brumado, Guanambi, Ibiassucê e Jussiape, todos na Bahia.
Apesar das condições subumanas, esta tem sido a alternativa para moradores do sudoeste. De tanto verem sair os maridos para outro Estado, as mulheres já se conformam com o rótulo “viúva de marido vivo”.