Amêndoa orgânica atrai indústrias

21/11/2007

Amêndoa orgânica atrai indústrias

 

De olho em um nicho promissor de mercado, a americana Cargill reiniciou neste ano o processamento de cacau orgânico em sua fábrica em Ilhéus (BA). Cerca de 50 produtores já estão fornecendo a amêndoa para o grupo, que pretende quintuplicar a produção orgânica nos próximos três anos. 
Segundo Aureliano Bulhões Neto, gerente de originação da unidade de negócios de cacau da Cargill, nesta primeira safra, iniciada em maio, o grupo obteve 50 toneladas da amêndoa. "É pouco, não chega a 1% da produção total do grupo". Até 2010, porém, a expectativa é atingir 500 toneladas. 
Com participação de 30% no mercado brasileiro de cacau, a Cargill segue os passos trilhados há seis anos por sua principal concorrente no país, a Barry Callebaut Brasil - braço da empresa suíça, maior fabricante mundial de chocolates -, que processa 500 toneladas de cacau orgânico no Estado. 
"O cacau orgânico paga 20% a mais do que o convencional", diz Bulhões Neto. Ele explica que a empresa negociou com a amêndoa orgânica entre 2004 e 2005, mas parou por falta de mercado nacional. Agora, a entrada no novo nicho foi motivada pela "situação desconfortável" surgida com a queda da produção baiana após incidências consecutivas de vassoura-de-bruxa, a principal praga da cultura. "O orgânico surgiu com a necessidade para contrabalançar essa situação. Queremos que essa seja uma alternativa para agregar valor ao produto", afirma. 
Por razões de mercado, a Cargill não fala em custos de investimento, mas explica que está aproveitando parte da infra-estrutura já criada para a indústria do cacau tradicional, inclusive o suporte de técnicos e do setor comercial. A empresa está custeando o processo de transição dos agricultores para a cultura orgânica e pretende montar um cadastro próprio de fornecedores certificados por IBD e IMO. O processo, que inclui a "desintoxicação" do solo, dura em média três anos. Segundo Bulhões Neto, a empresa trabalha no país com uma área total estimada de 506,5 mil hectares - 4,2 mil hectares destinam-se à amêndoa orgânica. 
O consultor Thomas Hartmann, principal estudioso do mercado de cacau no Brasil, explica que a própria descapitalização do produtor fortaleceu a expansão dos orgânicos - com menos renda, muitos deixaram de aplicar produtos químicos no combate às pragas. "Mas o mercado de orgânicos é essencialmente pequeno", ressalta. 
O diretor-geral da Barry Callebaut Brasil, Dieter Schriefer, concorda. "Os orgânicos representam menos de 2% da nossa produção total. E pode crescer talvez mais uns 1% ou 2%", afirma. De acordo com ele, os orgânicos alcançam 1,5% do faturamento líquido geral da Barry Brasil, de aproximadamente R$ 200 milhões por ano. 
No atual ano fiscal, iniciado em 1º de setembro, a comercialização projetada é de 400 toneladas de produtos de cacau orgânico, como licor, manteiga de cacau e cacau em pó. Quase 90% é exportado. "Nosso maior cliente no mercado doméstico é a Native", diz Schriefer. A Native, maior produtor e exportador de açúcar orgânico do país, compra o cacau em pó orgânico da Barry Callebaut Brasil para a fabricação de seu achocolatado. 
Com 4,7 mil hectares plantados e 106 produtores, a empresa estima chegar em 2010 com uma produção de 1.500 toneladas e mais de 6 mil hectares certificados.