Nordeste desperdiça metade de sua estrutura de irrigação
No Nordeste setentrional, mais da metade dos equipamentos instalados para irrigação em 60 mil hectares estão parados, segundo reportagem da Folha de S.Paulo (disponível para assinantes do UOL e do jornal).
Na região, onde as chuvas são esparsas e o clima predominante é o semi-árido, 30.880 hectares estão sem plantio algum, de acordo com dados do Dnocs (Departamento Nacional de Obras contra as Secas).
Sem irrigação, pequenos produtores só podem esperar a chuva, que nem sempre é suficiente, para o plantio de subsistência de feijão, milho e mandioca.
As explicações para a ineficiência do uso das áreas já prontas para irrigar são várias. Para o diretor-geral do Dnocs, Elias Fernandes, em alguns casos há falta d'água e em outros há falta de interesse de agricultores ou empresários em investir, dificuldades para conseguir crédito ou mesmo problemas de gestão.
Além disso, de acordo com agricultores ouvidos pela Folha, há também indícios de especulação imobiliária, principalmente em áreas que serão beneficiadas pelo projeto de transposição do rio São Francisco e que terão seu potencial hídrico triplicado quando a obra estiver pronta.
Área irrigada é disputada por MST e empresas
Terras do perímetro irrigado Jaguaribe-Apodi, na divisa do Ceará com o Rio Grande do Norte, são disputadas por empresas de fruticultura, pequenos agricultores nativos e até pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Dos 5.400 hectares do perímetro já implementados, 2.600 estão sem cultivo algum.
Diante das terras ociosas e dos canais d’água que passam no meio delas, 160 agricultores que já foram irrigantes da área, mas que tiveram de entregar seus lotes para cobrir dívidas, ameaçam até invadi-las para começar a trabalhar.
Água não é problema na região, garantida pelo rio Jaguaribe, que foi perenizado pelo açude Orós. O que impede que as terras estejam sendo totalmente cultivadas é, para os agricultores, a especulação imobiliária, pois a área será beneficiada pela transposição do São Francisco.
"Um hectare de terra valia antes R$ 40. Depois, já foi vendido por R$ 1.400", disse José Maria Filho, da Associação dos Ex-Irrigantes do Projeto Jaguaribe-Apodi. "Essa terra é muito fértil. É só ter água."
Os 160 agricultores estavam entre os beneficiados do perímetro quando o projeto começou a ser implantado, no final dos anos 80. "A gente começou a colher muito, uma safra muito boa, mas não via o retorno", disse Luís Ferreira da Silva, 72, um ex-irrigante. "Foi então que descobrimos que a nossa cooperativa tinha feito uma dívida enorme e não pagou nada. Sem dinheiro para produzir, o jeito foi entregar as terras", disse José Maria.
O que antes eram lotes destinados a pequenos agricultores passou a ser de empresas, que só os utilizam parcialmente. "O perímetro, por si só, está irregular, pois não há controle algum sobre a posse dessa terra", disse o procurador Samuel Arruda. Ele solicitou à Justiça que o Dnocs faça a demarcação da área para estabelecer um novo espaço para os pequenos agricultores.
Só 15 pequenos agricultores da área irrigável não entregaram suas terras, permanecendo com um lote de 7 hectares cada um.