Capitalizada, Netuno usa na pesca modelo de frigoríficos
Após receber o aporte de R$ 60 milhões do BNDESPar em 2006, a pernambucana Netuno começa a colocar em prática um plano para se tornar referência no mercado de peixes e frutos do mar, a exemplo do que já acontece com Sadia e Perdigão para frangos e porcos.
"A proteína de peixes é a única a ainda pertencer a um setor extremamente fragmentado no país", diz Leonardo Moreira, diretor financeiro da Netuno, cujo faturamento deve alcançar R$ 235 milhões este ano, o maior do setor.
Para se ter idéia dessa pulverização, o Brasil produz cerca de 1 milhão de toneladas por ano de pescados. A Netuno, maior empresa do setor, faz só 35 mil toneladas.
No mundo, muitos países já assistiram a essa consolidação. A maior companhia é a norueguesa Marine, que fatura US$ 1 bilhão e tem ações negociadas em bolsa.
Para alcançar esse crescimento, a Netuno tem duas estratégias principais. Uma é a produção de tilápias, peixe em ascensão no mundo mas ainda pouco consumido no Brasil. Para isso, a empresa investiu na produção e no processamento de tilápia em Paulo Afonso (BA), de onde podem sair até 25 mil toneladas do peixe. Neste ano, foram vendidas apenas 5 mil toneladas, mas a expectativa é chegar a 18 mil toneladas já no próximo ano. Dos 7% do faturamento da Netuno, a tilápia deve passar a responder por 50% em cinco anos.
No sistema de produção, a empresa já está copiando em partes o sistema adotado para carnes de frango e porco por Sadia e Perdigão: dá aos pescadores o apoio técnico e a ração e depois compra deles os pescados. O processo é conhecido como produção integrada. "Cultivar tilápias em larga escala no Brasil ainda não é uma técnica dominada, temos de produzir também. Fazemos 50% daquilo que vendemos", diz Moreira.
A outra estratégia é se preocupar com a industrialização e comercialização, produzindo itens de maior valor agregado. A Netuno pode partir também para aquisições, fusões e parcerias com empresas do setor. A partir de tudo isso, a empresa espera ter em 2010 faturamento de R$ 500 milhões.
Para traçar esse planejamento, a empresa também levou em consideração a demanda mundial por peixes. Segundo dados da FAO, até 2030 serão necessárias mais 30 milhões de toneladas de peixe para manter o ritmo de consumo atual. No próprio mercado interno, o consumo ainda é bastante baixo. O brasileiro come, segundo a Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca, 8 quilos de pescados por ano, sendo que a média mundial é de 16 quilos anuais por habitante. Como a pesca exploratória já chegou ao limite, segundo a FAO, a saída é o cultivo, como o que a Netuno vem fazendo com a tilápia.
Na avaliação de Karim Bacha, subsecretário de desenvolvimento de aqüicultura e pesca, o setor de pescados passará por um movimento de consolidação no Brasil. "Temos uma quantidade imensa de lâminas d´água disponíveis. Em breve, elas se transformarão em áreas de cultivo de peixes. Existem até grupos estrangeiros interessados nesse negócio, o que deve ajudar na consolidação do setor", diz.
Segundo informações do BNDESPar, foram os potenciais de crescimento do mercado de pescados e de formação de grandes empresas que despertaram o interesse do braço de investimento do banco de ficar com 33% do capital da Netuno via o aporte de R$ 60 milhões feito no ano passado.
Será depois de assistir ao crescimento de uma empresa que nasceu como uma pequena pescaria em um bairro popular do Recife das mãos dos sócios Hugo Bahamondes e Sérgio e Alexandre Colaferri que o BNDESPar buscará seu retorno vendendo sua participação seja em bolsa de valores ou até para um potencial comprador estratégico, segundo Moreira.