Indústrias se adaptam às seqüelas da fraude no leite
São Paulo, 29 de Novembro de 2007 - Passado um mês do início das denúncias de fraude no leite, as indústrias estão se adaptando à nova realidade do setor. Algumas direcionaram a produção do longa vida para outros derivados; outras diminuíram as compras de terceiros. Mas não aumentaram seus controles de qualidade. No período, o maior penalizado foi o produtor: o preço para caiu 7,5%, enquanto no varejo foi de 4%.
"Após a tempestade, a situação está se normalizando. A fraude foi um mal necessário, um divisor de águas. Agora temos certeza de que não teremos mais esse tipo de empresa", afirma Marcelo Martins, técnico da Comissão Nacional de Pecuária Leiteira da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Na sua avaliação, a partir de agora, as indústrias terão mais cuidado na aquisição de leite resfriado. "O produtor teve de comprar tanque de expansão, melhorar a sua rede de energia para garantir a qualidade do produtor e teve sua imagem manchada por empresas que estavam comercializando leite fora de conformidade", reclama.
Foi o segundo mês consecutivo com reduções nas cotações do leite ao produtor. Para a analista Cristiane de Paula Turco, da Scot Consultoria, o aumento do volume oferta - com o início das chuvas - não é a única explicação. "Já se esperava uma queda, independente da crise, mas também teve influência da fraude. As empresas de longa vida tiveram redução nas vendas de 20% a 40% na época", afirma Cristiane. O pesquisador Gustavo Bedusch, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), acredita que o volume maior é que provocou a redução nos preços. Segundo ele, desde junho a captação aumentou 36% - no mesmo período do ano passado foi de 21% - e, em outubro a oferta foi 3,2% maior em relação ao mês anterior.
O diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Leite Longa Vida (ABLV), Nilson Muniz, acredita que a situação já esteja normalizada. "No início havia uma grande confusão. Nem a indústria nem o consumidor tinham informações claras e algumas redes que postergaram seus pedidos. A partir da terceira semana até agora o mercado vem se acomodando", diz. Segundo ele, o que houve foi migração para marcas mais confiáveis, pois o longa vida é o leite fluido mais consumido no Brasil - representa 76%. Ele reitera que a fraude ocorreu na matéria-prima e não no produto acabado. Em 22 de outubro passado, a Polícia Federal prendeu 27 pessoas, na operação "Ouro Branco" em que pessoas ligadas a duas cooperativas mineiras eram acusadas de adicionar ao leite substâncias não permitidas ou acima da dosagem padrão.
O diretor-industrial da Nilza, Marcelo Nogueira, diz que a empresa manteve as compras e os mesmos critérios de avaliação de matéria-prima. Segundo ele, a única alteração foi a ocorrência de uma auditoria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Após a denúncia de fraude, o ministério afastou os técnicos envolvidos e anunciou alterações na fiscalização. Pela nova norma, o fiscal permanente nos laticínios foi substituído por auditorias aleatórias, com a presença de profissionais de estados diferentes do local onde ocorre a fiscalização.