Tilápias entram no clima
Carne com um sabor suave, sem espinhas e de baixo teor de gordura, fácil adaptação tanto ao clima frio quanto ao quente e relativa facilidade de procriação em cativeiro.
Estamos falando da tilápia, um peixe originalmente de água doce, cuja produção está beneficiando 49 famílias das comunidades de Torrinhas, Alves, Tapuias e Canavieiras, no município de Cairu (a 308 km de Salvador), que têm, como atividade principal, a criação desse peixe em tanques-redes.
Alguns combinam a piscicultura com atividades tradicionais, como mariscar ou cortar piaçava e dendê. “Os produtores vão fechar o ano com produção acima de 300 toneladas do peixe inteiro”, comemora Leonardo Moura, líder da Cadeia Produtiva da Aqüicultura.
A tilápia vem ganhando prestígio no mercado mundial, com uma média de 7,12 mil toneladas por ano. Por ser de água doce, passa por um processo de aclimatação para se adaptar ao ambiente estuarino. O alevino chega com um grama. Ao final de seis meses, chega a um peso acima de 600 gramas.
“O peso ideal para despesca fica entre 700 a 800 gramas”, conta Leonardo Moura.
A aqüicultura surgiu como alternativa à pesca predatória no baixo sul, que vinha dizimando peixes e mariscos do estuário (encontro do rio com o mar).
Renda
Com a implantação de 33 módulos de criação de peixes, em 2002, a renda mensal das famílias envolvidas aumentou de R$ 200 para R$ 600. Nos últimos três anos, já foram produzidos mais de 650 mil quilos de tilápia, sendo a produção de 2007 acima de 300 toneladas do peixe, criados nos 490 tanquesredes espalhados nestas quatro comunidades.
“Cada tanque-rede custa em média R$ 700. Mas os de Cairu foram financiados a fundo perdido pela Fundação Odebrecht, parceira do projeto”, ressaltou Fábio Pereira Ribeiro Nepomuceno, da comunidade de Torrinhas e técnico comunitário da área de produção.
A produção mensal varia nas estações de inverno e verão, explica Leonardo Moura. Com as chuvas, há maior aporte de água doce, propiciando maior produção, que pode chegar a 54 t/mês; no verão, a estiagem permite uma maior influência da maré e a capacidade produtiva cai para 40 t/mês. Alguns produtores, mais cuidadosos no manejo do peixe, se destacam e, em quatro meses, obtêm resultados acima de R$ 4 mil. “A tilápia foi a única espécie de peixe com ciclo completo, da alevinagem à ração”, salientou Fábio Nepomuceno.
Coopemar
O projeto foi iniciado em 2000, quando os pescadores receberam treinamento sobre associativismo, organização dos negócios e noções técnicas sobre a criação de peixe em tanques-redes e criaram em 2003 a Coopemar.
“Em seguida, houve a formação de equipe técnica, identificação de aqüiculturas, articulação da comunidade local e capacitação das famílias. Dois anos depois, recebemos os equipamentos e começamos a produção das tilápias nos estuários”, ressaltou Leonardo Moura, acrescentando que “a meta em 2007 é atender a 53 famílias”.
A Coopemar possui hoje 127 associados.
Todas as etapas da instalação do projeto têm o acompanhamento de técnicos das instituições parceiras, que abraçaram a idéia, como a Bahia Pesca, ligada à Secretaria da Agricultura e Reforma Agrária do Estado da Bahia (Seagri), a Secretaria do Trabalho e Ação Social do Estado da Bahia (Setras) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul (Ides), em Ituberá.
Torrinhas
É uma pequena vila de pescadores com cerca de 500 habitantes, localizada a 14 km do município de Cairu. A boa qualidade da água e a redução da população de peixes na área do estuário favoreceu o crescimento da instalação dos tanques-redes. O movimento no pequeno cais de Torrinhas reúne os pescadores logo cedo pela manhã.
Num barco pesqueiro, eles seguem para os tanques-redes. Cada um dos 10 tanques tem capacidade para receber 900 juvenis. Os tanques são gaiolas colocadas nos rios dentro das quais ficam confinados os peixes por 120 dias. Após esse período, as tilápias atingem entre 650 e 950 gramas.
O clima de otimismo entre os pescadores é geral, eles que acreditaram na viabilidade do projeto.
É dia de despesca, que dura em média seis horas e conta com a participação dos criadores. Parece uma aventura; a diferença é que dá um bom lucro. Ao contrário de jogar a rede e pescar apenas para alimentação, já que os peixes comuns e os mariscos sumiram do estuário.
Pescador tira até R$ 3 mil com criação
As tilápias saem saltitantes dos tanques e são despejadas em tonéis carregados com gelo. Depois seguem para os caminhões-frigoríficos rumo à Ilhéus Frutos do Mar, indústria prestadora de serviços, parceira da Coopemar, onde serão beneficiados.
Os criadores participam de todo o ciclo. Colocam ração, até cinco vezes ao dia; limpam os tanques e contam as perdas, que vão definir a quantidade de ração a ser usada. Isso durante quatro meses. O pescador Marcos Antônio Conceição Santana, de 34 anos, pesca desde pequeno. E nunca viu tanta prosperidade. E não é história de pescador.
“Nasci no mar e levava seis horas com meu pai fora de casa. Com a camboa, a gente conseguia até 50 kg de peixe, mas o pescado sumiu no estuário e hoje só pescamos 20 kg.
Depois da criação de tilápia, virei patrão e minha renda chega a R$ 3 mil”, diz Marcos. O processo de despesca retira no mínimo de 5 a 6 toneladas de peixe. “Tem produtor que chega a obter resultado de renda mensal acima de R$ 1 mil, comenta.
Processo
Tanques-redes são espécies de gaiolas que ficam quase que totalmente submersas no rio. Dentro delas são colocados peixes ainda na fase de alevinos e com peso médio inicial a partir de 2 gramas cada um. A depender do mercado, são retirados para venda com peso médio de 800 gramas. Uma unidade agrega uma família que cuida de um módulo de tanques-redes, que tem capacidade de produção anual acima de 13 toneladas.
Na unidade de beneficiamento, o peixe é filetado e embalado. “Lá uma pessoa da Coopemar acompanha todo o processo de beneficiamento, e os produtos recebem o Selo de Inspeção Federal (SIF)”, ressalta o técnico Fábio Nepomuceno. Os pecadores entregam o peixe à Coopemar, que lhes adianta R$ 2,82/quilo. A cooperativa cuida do beneficiamento e distribuição do filé de Tilápia Estuarina. No mercado soteropolitano, custa R$ 13,80/quilo.
Potencial
O consumo do filé de tilápia vem aumentando no País. “O custo ainda é alto e não temos como competir com outros fornecedores.
Nosso objetivo é aproveitar todo o potencial”, diz Uélington Silva, da área de compras e logística da Coopemar. Na Casa Familiar do Mar, jovens da comunidade já aprendem a confeccionar artesanato, inclusive usando o couro da tilápia. Vanessa Silva dos Santos, 16 anos, faz parte da Casa Familiar há três anos.
Quando não está nos cursos da Casa, está ajudando na despesca.
Ela, junto com outros jovens da comunidade, criou a Associação de Jovens Artesãos do Baixo Sul. “Hoje nos preocupamos também com a preservação ambiental. Trabalhamos com artesanato, produzimos peças usando o couro da tilápia. Fazemos bolsas, cintos e outros acessórios.
Também usamos coco Bahia e piaçava”, diz Vanessa.