Cacau ameaçado por novo fungo
A monília (Moniliopkthora roreri), doença mais agressiva que a vassourade-bruxa, pode ser o golpe definitivo no cacau brasileiro, que ainda tenta vencer os estragos feitos pela vassoura na produção nacional.
O País chegou a produzir 400 mil toneladas/ano em 1983 e 1984, mas em 1999, depois da praga, o rendimento das plantações caiu para 96 mil toneladas, atingindo o patamar mais baixo.
Produzida por um fungo do mesmo gênero do Crinipellis perniciosa, o causador da vassoura, a monilíase é endêmica na América Latina. No Equador, onde foi detectada em 1914, ela derrubou as exportações de 47 mil toneladas/ ano para 10.580 toneladas. A doença só aparece nos frutos e, em algumas regiões equatorianas, chegou a 95 % deles. Ontem, durante seminário sobre o problema, dirigentes da Ceplac fizeram um “alerta vermelho” aos produtores regionais, afirmando que a doença está próxima da fronteira do Brasil, a cerca de 150 km do Acre.
Para a região sul da Bahia, que produz 90% do cacau do Brasil, a combinação com a vassourade-bruxa seria devastadora.
Um agravante, segundo o fitopatologista João Louis Pereira, é que a monília se dissemina rápido. O fungo causador da doença é resistente a altas temperaturas, gera bilhões de esporos por fruto e, se cair numa corrente de ar, contamina plantas a grandes distâncias. Além disso seus esporos sobrevivem vários meses.
De acordo com Pereira, após ser identificada no Equador, a patologia se espalhou na América do Sul, exceto no Brasil, e chegou até o México. A vassoura-de-bruxa foi encontrada em 1895, no Suriname, e só 35 anos depois contaminou toda a América do Sul. Como defenderam alguns produtores, no seminário de ontem, o fitopatologista diz que é preciso fazer barreiras sanitárias para evitar que o fungo entre no Brasil pelo Peru.
Os impactos sócio-econômicos em todos aos países foram devastadores.
No Peru, a monília associada com a vassoura-de-bruxa provocou 90% de danos à produção e na Venezuela o prejuízo foi de 70%. Enquanto os países onde já existe a doença têm apenas uma safra, o sul da Bahia tem a safra principal e a temporã, que ocorre no verão e seria a mais afetada pela monília, que prolifera em épocas de altas temperaturas.
O maior agravante é que existem poucas medidas de controle.
Segundo Pereira, na Ceplac, há seis materiais resistentes sendo trabalhados, mas ainda estarão em quarentena por dois anos. Na área de pesquisa, a Ceplac desenvolve intercâmbio com instituições da Colômbia e Equador. “Essa troca de informações permite a identificação de clones mais resistentes”.
Os pesquisadores trabalham ainda no desenvolvimento do controle químico e biológico. “Mantemos material em quarentena, para estudar os genes existentes nas plantas e testar fungicidas para combater a monilíase”, diz o fitopatologista Antonio Zózimo Mattos, do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec).