Estoques de café do governo vão zerar
Muitas são as lendas cultuadas no país. Pelo menos uma delas, a que diz que os estoques de café do governo nunca acabam, está caindo por terra. Acumulados desde o início do século XIX, quando o Brasil despontou como maior produtor e exportador de café, esses estoques já eram considerados estratégicos na época para o país, que despontava como o principal formador de preços no mercado mundial.
Depois de décadas lotando os armazéns credenciados pelo governo brasileiro, esses estoques estão se esvaindo. Nas mãos do governo, hoje, há 865 mil sacas de 60 quilos. É pouco. Esse volume chegou a ser dez vezes maior em 1999. E vinte vezes maior em 1989, com o fim do IBC (Instituto Brasileiro do Café).
Em 2008, entretanto, esse volume deverá ser zerado, sobretudo com a continuidade dos leilões oficiais, feitos para desovar cafés velhos e de menor qualidade, normalmente utilizados em blends de café solúvel. Só neste ano foram 20.
Os recursos arrecadados nos leilões são repassados para o Funcafé (Fundo de Desenvolvimento da Economia Cafeeira). Outras 189 mil sacas de café também estão nas mãos do governo, mas esse estoque pertence ao Tesouro, que financiou há três anos a compra de café por meio dos contratos de opção para enxugar a oferta no país.
A forte demanda no mercado interno - com o consumo de 17 milhões de sacas, a taxas de crescimento de 10% ao ano - e as exportações em torno de 28 milhões de sacas, volume que tem se mantido nos últimos anos, têm ajudado a reduzir os estoques do governo.
Lucas Ferreira, diretor de café do Ministério da Agricultura, lembra que a decisão do governo em se desfazer desses estoques também reflete, em parte, a idade avançada desse café armazenado. A maioria foi adquirido durante os anos 1980. Os custos para manter esses grãos armazenados também pesaram na decisão do governo. Para as indústrias e exportadores do país, o fim dos estoques governamentais não trará grande consequências para o mercado, uma vez que os volumes atuais estocados são considerados inexpressivos. De acordo com Nathan Herszkowicz, diretor da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a história recente mostra que as indústrias não são forte dependentes dos cafés estocados pelo governo federal. "Nos últimos dez anos, houve pouca dependência", diz o dirigente.
"Isso vai ajudar a desmistificar a importância de um estoque estratégico. Os volumes são inexpressivos para os preços", confirma Guilherme Braga, diretor do Cecafé. Entre os cafeicultores, entretanto, o clima é de preocupação. Uma ala do segmento já começou a se movimentar para que o governo volte a recompor seus estoques.
De acordo com Eduardo Carvalhaes, diretor do Escritório Carvalhaes, em Santos (SP), o Brasil nunca zerou seus estoques. "O Brasil responde por 40% do mercado internacional." A demanda mundial cresce entre 1,7 milhão a 2 milhões de sacas por ano. "Há notícias de que os estoques de café nas mãos dos países consumidores também estão caindo", afirma o especialista. O mercado, contudo, está atento aos volumes estocados pelo setor privado, que não divulga seus números.
A produção mundial está em torno de 110 milhões de sacas de café, de acordo com dados da Organização Internacional do Café (OIC). O Brasil produz em média 40 milhões de sacas, considerando a bianualidade da cultura (produtividade baixa a cada dois anos).
Os preços internacionais estão atraentes. Na bolsa de Nova York, as cotações acumulam alta de 5,6% em 12 meses e 36,8% em 24 meses. Nem o dólar fraco afetará a receita com as exportações, que deve atingir US$ 4 bilhões este ano, 11% mais que em 2006, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Até novembro, foram US$ 3,57 bilhões, 19,7% mais que em igual intervalo do ano passado.