Obra de transposição avança em Cabrobó
Enquanto o bispo de Barra, dom Luiz Cappio chega hoje (06/12) ao seu décimo dia de greve de fome alojado na Capela São Francisco em Sobradinho (556 km de Salvador), a aproximadamente 200 km de lá, os engenheiros que tocam as obras do Eixo Norte da Transposição do Rio São Francisco continuam seu trabalho, indiferentes ao jejum do religioso. Homens e máquinas do Exército trabalham a todo vapor na mesma área onde no mês de junho houve uma grande mobilização contra a obra conduzida pelo governo federal.
A uma distância de 12 km do município de Cabrobó (PE), nos dois lados da BR-428, a obra se mantém. A área hoje totalmente desmatada deu lugar a um enorme canteiro de obras que tem como finalidade a construção do primeiro canal do projeto e do reservatório de Tucutu. O canal do Eixo Norte levará água para o sertão de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.
O largo do canal que está sendo aberto pelo Exército mostra a aceleração do projeto que tem gerado inúmeras manifestações contrárias, a exemplo da ocorrida na última segunda-feira.
O presidente da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, Uilton Tuxá, disse que a continuidade das obras de transposição preocupa os índios pela questão de desalojamento de tribos instaladas, há séculos naquelas cercanias. “Nós temos os povos trukás, cambiuá, pipipá, tumbalalá, tapeba e anacé próximos aos eixos do canal de transposição”, explicou. ISAURA Dom Luiz Cappio acredita que o governo federal produz propagandas enganosas sobre a transposição, enquanto deveria avaliar as centenas de alternativas viáveis para levar água a quem precisa.
Com a mesma convicção e dando absoluto apoio de quem o trata como um filho está a aposentada Isaura Pereira da Silva de 70 anos, dona da residência onde o franciscano se abrigou durante sua primeira greve de fome.
Pequena e com sorriso maternal, a aposentada fala com ar de sabedoria sobre a transposição: “Os mais velhos diziam que o rio ainda ia dar uma cacimba e em alguns lugares nem isso. E aí viria a guerra.
Infelizmente os mais novos hoje em dia não acreditam e acaba acontecendo isso tudo que se vê”, afir mou.
Para dona Isaura, dom Luiz Cappio é uma pessoa com “dom de Deus” que o governo ignora. Emocionada, ela lembra o tempo em que passou perto de dom Luiz há dois anos, e mostra o pote de barro onde ficava a água que o bispo bebia durante o jejum juntamente com um copo de plástico branco, muito bem guardados por ela. Na parede da sala as fotos tiradas do bispo ganharam o mesmo espaço que Nossa Senhora Aparecida, São José e Santo Antônio. Um amigo dentista em Cabrobó a levou para visitar dom Luiz Cappio em Sobradinho e ela espera voltar lá. “Rezo todos os dias para que tudo acabe bem e se pudesse estaria com ele lá”, conta.
Na cidade de Cabrobó, a idéia de transposição divide opiniões e dizer isso à imprensa causa desconforto.
Algumas senhoras afirmavam que “não adianta querer cobrir um santo descobrindo outro” e, principalmente, “que não podemos esquecer que nós aqui também não temos água só, é preciso deixar a margem do rio e se encontra muita gente sem água”.
Francisco de Paula Pereira da Silva, filho de dona Isaura, diz que a cidade de Cabrobó sofre com abastecimento de água que “quando chega às caixas d’água dos bairros é sempre à noite”, relatou.