Usinas "derretem" açúcar para fazer mais álcool no Centro-Sul
São Paulo, 9 de Dezembro de 2007 - Em 1989, plena vigência do Programa Brasileiro de Álcool (Proálcool), faltou o combustível no mercado e as usinas tiveram que buscar açúcar na região de Campos (RJ) e no Nordeste para "derreter" e fazer álcool para abastecer a frota de carros, naquela época cerca de 90% movida a combustível verde. Neste mês de dezembro, 19 anos depois, algumas usinas do Centro-Sul do País retomaram essa prática, dessa vez, para aproveitar a melhor remuneração do álcool em relação a do açúcar. Até onde se sabe, o volume ainda é pequeno, e envolve em torno de 15 mil toneladas de açúcar, insignificante perto da produção do Centro-Sul (25 milhões de toneladas). Mas essa prática, aliada à forma tradicional de redirecionar açúcar (antes da cristalização) para fabricação de álcool (ainda no processo industrial) farão com que o mix da safra 2007/08 seja ainda mais alcooleiro.
O processo de "derreter" açúcar consiste em misturar o produto do tipo VHP - ou mesmo o branco - com água, caldo que pode compor até 15% da mistura total (junto com o caldo da moagem da cana). A prática é economicamente viável, segundo José Carlos Toledo, presidente da União das Destilarias do Oeste Paulista (Udop). Isso para as usinas que estão com parte da capacidade ociosa. O custo de produção do álcool com reprocessamento de açúcar é cerca de 10% superior ao custo do álcool feito no processo tradicional.
"Como isso está sendo feito na capacidade ociosa das usinas, o custo adicional não é significativo. Basicamente se restringe ao manuseio", completa Toledo. Ele conta que a alternativa começou a ser adotada neste mês por algumas usinas. Somente as usinas do grupo Equipav, do qual Toledo é sócio, está direcionando 5 mil toneladas para fabricação de álcool. O dirigente da Udop acrescenta que a forma tradicional de ajuste no mix de produção das usinas (transferência do açúcar antes da cristalização) também está acontecendo.
A recuperação dos preços do álcool, a partir do final de outubro, deve fazer com que a safra 2007/08 do Centro-Sul seja mais alcooleira do que o previsto. A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), que no início da safra estimou um mix de 54,75% para álcool, avalia agora que o percentual deve aumentar, sendo superior a 55%. "Acreditamos que o adicional não vai chegar a 1 ponto percentual", diz Antônio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da Unica.
Enquanto as cotações do açúcar continuam nos patamares de 10 centavos de dólar por libra-peso - abaixo do custo médio de produção no Centro-Sul, que é de 11,8 centavos de dólar, segundo a Datagro - os preços do álcool desde outubro se recuperam. Na última semana, a elevação do litro do hidratado foi de 0,31%, fechando em R$ 0,75 (na usina) - o que o mercado considera praticamente estável, segundo indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP). Mas, desde o dia 26 de outubro, a alta é de 30%.
Virada do açúcar
A capacidade da Índia de mudar radicalmente o volume de produção de cana de um ano para outro foi uma das principais razões de os usineiros do Brasil serem surpreendidos pela forte queda dos preços do açúcar no mercado internacional. Na safra indiana 2007/08, que começa em outubro, a produção de açúcar será recorde, próxima de 34 milhões de toneladas, superando a do Brasil (30 milhões), que até então, era o maior produtor.
Para Toledo, da Udop, outro erro de avaliação do usineiro do Brasil foi a de achar que as cotações subiria ainda mais em 2006, quando chegou a atingir 20 centavos de dólar a libra-peso. "Não fixaram na alta, achando que ia subir mais".