Sem venda à União Européia, frigoríficos podem demitir

14/12/2007

Sem venda à União Européia, frigoríficos podem demitir

 

As novas regras da rastreabilidade - por exigência da União Européia - podem provocar demissões nos frigoríficos brasileiros. As empresas alegam que faltará animal rastreado e terão de remanejar os abates destinados à Europa para o mercado interno. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento aguarda para a próxima segunda-feira ou no máximo quarta-feira o relatório da União Européia. Mas, por inconformidades observadas pelos técnicos europeus já modificou algumas normas, exigindo, entre elas, uma Guia de Trânsito Animal (GTA) eletrônica, e a permanência do animal há pelo menos 90 dias na área habilitada.
"Com a nova normatização vamos ter concentração de animais em algumas fábricas. E, seguramente vão ocorrer demissões", afirma Mário Luís Pilz, diretor do frigorífico Mercosul. Segundo ele, a falta de animais rastreados vai fazer com que a única opção dos frigoríficos seja a paralisação das atividades ou o direcionamento dos abates para o mercado interno. Opinião semelhante tem o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Péricles Pessoa. "As notícias da União Européia são muito preocupantes. Eles vão mudar o critério, fazendo auditoria. Isso é uma forma indireta de diminuir as exportações brasileiras", afirma. Segundo ele, se isso ocorrer, haverá um excesso de oferta no mercado interno e o preço cairá para a cadeia toda. "Pode ter empresas que fechem se houver um canibalismo pelo mercado, pois o interno não vai absorver tudo", acredita.
No frigorífico Independência foi preciso mudar o sistema de compra. De acordo com o diretor-comercial da empresa, André Skirmunt, até pouco tempo a indústria só adquiria animal rastreado - para atender a todos os mercados -, mas, com a escassez, utiliza os bovinos inscritos no Sisbov apenas para a União Européia. "Como há falta de bovinos, tem frigorífico de mercado interno pagando até mais que o exportador", reclama. De acordo com o analista Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria, a diferença entre o mercado interno e o externo tem chegado até a R$ 2 por arroba. "O risco do Sisbov ficou enorme e os pecuaristas não se sentem estimulados a participar. Mas, por enquanto, os frigoríficos ainda estão conseguindo se virar", diz.
"Houve um período em que se pagou mais. Em função da alta do preço do boi, isso se inviabilizou", afirma Ronei Lauxen, presidente do Sindicarnes/RS. Segundo ele, a situação da União Européia tem preocupado o setor, principalmente pela baixa adesão ao Sisbov. Segundo ele, o sindicato e a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) estão estudando um projeto para incentivar a rastreabilidade. A proposta seria dar um Incentivo financeiro - subsídio ou pagamento de boa parte da rastreabilidade - para que o produtor possa aderir ao sistema
O Independência tem duas plantas destinadas ao mercado europeu, uma em Minas Gerais e outra em Goiás e, até o momento, não teve dificuldades de abastecimento. Mas, com medo das novas normas, tem recomendado seus fornecedores a fazer um controle prévio na saída da fazenda. Isso porque, se um animal perde o brinco com a inscrição no Sisbov, todo o lote é descartado. Skirmunt diz que a indústria tomará novas medidas assim que souber quais serão as novas regras do bloco europeu.
"Do jeito que está, os europeus vão colocar tanta restrição que a própria Europa vai ficar sem oferta", afirma Paulo Molinari, analista da Safras & Mercado. Segundo ele, é praticamente impossível haver animais para o novo padrão. Na avaliação de Molinari, como é preciso conferir o chip, para ver se o boi está mesmo inscrito no Sisbov, os abates poderão atrasar. "A exigência é tamanha que não é possível ser cumprida", acredita. Mas, ao contrário dos representantes do setor, Molinari não está pessimista em relação ao mercado. Segundo ele, o retorno da Rússia pode compensar uma eventual perda da União Européia. Mas, acrescenta que o problema não será o volume e, sim, a queda no faturamento dos frigoríficos, pois o bloco é o mercado que paga mais caro.
"O que a gente tem visto é uma falta de oferta geral, tanto para rastreado quanto para não rastreado", afirma José Vicente Ferraz, diretor da AgraFNP. Segundo ele, talvez as novas regras apenas transfiram os embarques de uma empresa para outra. "Pode ser apenas um jogo para a torcida deles - ingleses e irlandeses", afirma. No entanto, segundo ele, se, na nova regra, o bloco não aceitar animais confinadores, alguns frigorífico que investiram nisso terão prejuízo grande. "Criar mais barreiras vai contra a lógica do mercado, pois é muito claro que o mercado internacional falta mercadoria", conclui.
O secretário de Defesa Sanitária do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Inácio Kroetz, diz não acreditar que o bloco possa fazer alguma exigência que não possa ser cumprida. Além disso, segundo ele, existe a possibilidade de o Brasil opinar e só depois a nova regra entrar em vigor.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 8)(Neila Baldi)