Plantar cana-de-açúcar em terra arrendada ficou inviável

17/12/2007

Plantar cana-de-açúcar em terra arrendada ficou inviável

 

Quem arrendou terra para produzir grãos lucrou mais do que em outras atividades. Levantamento exclusivo do Instituto FNP mostra que, com os preços mais altos - principalmente da soja -, os produtores tiveram margem suficiente para pagar os custos da terra, com sobra. Já no caso da cana-de-açúcar, o prejuízo foi grande. O estudo inédito mostra também que o arrendador (dono da terra) do Sul do País é o que teve maior lucro nos grãos, enquanto o do Sudeste ganha com a cana. Em média, nesta safra, o arrendador recebe R$ 335 por hectare no Paraná e R$ 750 em São Paulo.
É a primeira vez que a instituição faz uma pesquisa sobre o preço do arrendamento no País. O estudo mostra que, na soja, o maior pagamento ocorre no Sul - com média de 11 sacas (60 quilos) por hectare, para apenas 5 em Mato Grosso. Quem arrenda propriedades para a cana recebe, em média, 22 toneladas por hectare em São Paulo, para 9 em Mato Grosso do Sul. Na pecuária, há uma variação maior, em algumas regiões o pagamento é fixo por hectare ou por animal e em outras, por arroba.
"Onde as fazendas estão melhor estruturadas para aquela atividade, o pagamento é maior", explica a analista Jacqueline Bierhals, do Instituto FNP.
Segundo ela, os arrendamentos são todos indexados em produto, por isso, recebe mais o arrendatário cujo produto cultivado em sua propriedade teve melhor preço. Assim como, para o agricultor, o lucro é maior também. De acordo com a analista, neste safra o arrendamento está mais caro que na passada, no caso dos grãos. Isso porque a soja que era comercializada, em média, a R$ 20 a saca em Sorriso (MT), ficou em R$ 26 em 2007,um aumento de 30%. "Apesar do custo maior, o produtor ganhou porque o preço do grão subiu bastante", conclui.
Fábio Turquino Barros, analista da AgraFNP, explica que a valorização da soja é uma mudança estrutural, pois como os grãos estão sendo destinados à produção de combustível, os estoques ficaram ajustados e tendem a permanecer nos próximos anos, sustentando os preços acima das médias históricas. "Quem atravessou o momento complicado da sojicultura dos últimos dois anos colhe os frutos de uma atividade que passa a ser destaque não só em alimentos, mas também em combustíveis", afirma Barros.
Para a cana-de-açúcar, o prejuízo é certo na safra 2007/08. De acordo com o estudo, aliado ao custo alto em quantidade, o produtor tem uma margem negativa por causa dos preços.
O analista da Safras & Mercado. Gil Barabach, lembra, no entanto, que o arrendamento da cana é de cinco anos, portanto os valores são diluídos. "A idéia é ganhar na média. No ano passado ganhou muito e, neste, não". Em relação a 2006, os valores pagos pelo açúcar e cana caíram mais de 20% em 2007.
José Pessoa de Queiroz Bisneto, presidente do grupo José Pessoa e do Sindicato do Açúcar e do Álcool de Mato Grosso do Sul, diz que em algumas regiões, como em Araçatuba (SP), está inviável plantar cana em terra arrendada. Segundo ele, a atividade está "um tiro no escuro", pois neste ano os preços estiveram abaixo do custo de produção e a perspectiva é que a margem só volte a ser positiva em 2010, quando a velocidade do crescimento da safra será inferior à do aumento do consumo. Em 2009, há incerteza se haverá recuperação.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 5)(Neila Baldi)