Seca atrasa o plantio de feijão
A ausência de chuva e a falta de incentivo por parte dos governos federal e estadual são apontadas pelos agricultores de Irecê (a 474 km de Salvador) como os principais responsáveis pelo atraso no plantio de feijão na região. Na verdade, o plantio tem início em outubro, mas este ano só começou em dezembro.
Mesmo assim a safra pode não ser das melhores, caso a chuva não venha até o final de janeiro.
O agricultor Valter de Oliveira Matos disse que antes chegava a alugar alguns hectares para o plantio de feijão, de onde chegava a retirar cerca de 60 a 70 sacas por hectare.
Hoje, a situação mudou, e, quando a safra é boa, ele chega a tirar 12 sacas, sendo considerado ainda um dos melhores produtores da região de Irecê.
Ele tem uma plantação com cerca de 6 hectares de feijão, que foi plantado há 30 dias. “Antes, dedicávamos todo o nosso investimento no plantio de feijão, mas hoje se não plantamos outra coisa ficamos sem ter como sustentar nossos filhos”, lamenta. Para ele, o preço das sementes também está contribuindo para a desistência de muitos agricultores, uma vez que não existem incentivos para a aquisição e plantio das sementes.
“Hoje, o saco de sementes varia de R$ 300 a R$ 350. Não podemos comprar e plantar sem ter a certeza de que vai dar colheita, pois, se a chuva não vier como o esperado, teremos prejuízo”, disse. Outro que reclama da situação é João Dourado, que há três anos deixou de plantar feijão para cultivar milho.
CHUVAS – “Além da falta de chuva e incentivo, outro problema das plantações são as moscas brancas que se proliferam muito no tempo quente e acabam com a plantação. Estava pagando para vender o feijão e hoje não tenho esta dor-de-cabeça”, desabafou. De acordo com o presidente da Copirecê, Wilson Machado, a colheita só será boa caso as chuvas se prolonguem até o final de janeiro, e, para isso, tem que chover cerca de 80 a 100 milímetros a cada 20 dias. Ele lembra que a última safra boa foi em 92, quando foram colhidos mais de 6 milhões de sacas de feijão. “Permanecemos o ano de 93 vendendo a safra de 92. De lá para cá, tudo tem piorado. O feijão é tão bom de plantar que só precisa de três chuvas boas para ele ter uma boa colheita”, diz.
Mesmo com todas as dificuldades, Wilson Machado diz que pretende plantar de 15 a 20 hectares, isso contando com a a ajuda do Programa Agricultura Familiar, onde são distribuídos kits compostos de sementes de feijão-carioca e de corda, girassol, milho e mamona. “Se conseguimos plantar esta quantidade e com uma chuva boa, conseguiremos colher cerca de 300 mil sacas, mas creio que estamos sendo otimistas devido à situação que vem se prolongando nos últimos anos”, frisou.
Ele destacou que a falta de chuva levou os agricultores a apostarem em outras culturas, como girassol e sorgo (que serve de ração animal), que se adaptam muito bem ao tempo quente. Para ele, a Embrapa deveria estudar uma nova forma de desenvolver um tipo de semente mais resistente à seca e de boa produtividade.
INCENTIVO – Wilson Machado disse ainda que até o início da década de 90 havia muitos incentivos para o plantio de feijão na região, mas, devido aos juros altos e à seca, muitos agricultores ficaram inadimplentes e hoje não existe nenhum tipo de custeio para este tipo de cultura. “O único incentivo hoje é do Programa Agricultura Familiar que distribui kits através da seleção de beneficiados feita pela EBDA, secretárias municipais de Agricultura, sindicatos e cooperativas”, revelou.
Atualmente, as sementes estão sendo compradas em outros Estados, a exemplo de Sergipe e São Paulo, já que a região não está conseguindo suprir as necessidades dos produtores. O mesmo acontece com a venda do feijão. Os principais compradores são Rondônia, São Paulo e o restante do Nordeste.
O escoamento da mercadoria é feito exclusivamente pelas rodovias, e a falta de manutenção está dificultando os negócios.
“Ainda não chegamos a sentir estes prejuízos de perto, mas se as estradas continuarem esburacadas, o comércio sentirá rapidamente este reflexo”, acredita Wilson Machado.