Gurupi, "cidade do boi", põe Tocantins no mapa da carne
A "cidade do boi", em Tocantins, está em polvorosa. Pólo econômico de uma região de 15 municípios do sul do Estado, Gurupi, a 245 quilômetros da capital Palmas, vive uma inédita corrida de grandes frigoríficos e empresas de confinamento pelo seu rebanho. Com essa febre, o gado nelore local, cada vez mais precoce e de alta qualidade genética, virou artigo de luxo.
Motivadas pela alta cotação da carne brasileira no exterior, frigoríficos como Bertin, Minerva, Cooperfrigu e o grupo goiano Cotril mantêm mais de 500 mil cabeças de gado em áreas arrendadas nos arredores de Gurupi, onde há 1,6 milhão de reses disponíveis, segundo o sindicato rural. Antes vendido pelos pecuaristas com dois anos de idade, o boi passou a ser adquirido pelos frigoríficos aos oito ou dez meses. Em pastagens alugadas, os animais esperam o ponto de engorda e, aos 24 meses, podem ser abatidos. No modelo anterior, levavam até 42 meses para chegar ao ponto ideal de abate.
A explosão de demanda, causada pela escassez de bois com o status sanitário de livre de febre aftosa em outros Estados, valorizou o rebanho gurupiense. Há seis meses, um bezerro era vendido a R$ 300. Hoje, vale até R$ 450. E não se encontra boi na região. "Só falta o Estado ser habilitado para a Europa para consolidar de vez a situação", diz Henrique de Ávil, diretor do grupo Cotril.
Tocantins está classificado como "zona 2" pela União Européia, e por isso não tem habilitação para exportar ao bloco, que atualmente faz exigências rigorosas ao Brasil nessa área (ver página B13). À espera da melhoria do status, a Cotril Agropecuária investiu R$ 2 milhões em um confinamento para 15 mil bois na vizinha Figueirópolis e quer estrear no ramo frigorífico quando a UE habilitar plantas no Estado. "Pensamos em montar uma planta para atender a novos mercados", afirma Ávila.
No mesmo ritmo, a Sistema de Produção Integrada (SPI), empresa local de confinamento, investiu R$ 5 milhões para erguer uma estrutura de 30 mil bois por ano. Com o apetite dos investidores aberto, chegou a faltar gado para movimentar a "fábrica de bois" neste ano. Com isso, os seis sócios pisaram no freio e adiaram, de 2008 para 2010, investimentos na ampliação de confinamento.
"Antes disso, vamos ampliar nossa rede de parceiros para garantir mais grãos à ração dos animais", diz o diretor Tarcízio Goiabeira. E matéria-prima para alimentação é um problema na região. Os bois da SPI consomem 180 toneladas diárias de ração à base de farelo de soja, sorgo, milho e caroço de algodão. Como Gurupi não tem tradição na produção de grãos, a empresa gasta R$ 65 por tonelada de frete para trazer quase tudo do oeste da Bahia, a 500 quilômetros de distância.
Na SPI, o boi entra com 13 arrobas e, após 70 dias confinado em piquetes a céu aberto, sai com 17 ou 18 arrobas. A diferença vai para o bolso do confinador. "Mas o fazendeiro aumenta o peso do boi, preserva as pastagens sem o pisoteio do gado, melhora o preço porque vende na entressafra e ainda zera seus custos de manejo", diz Goiabeira. A roda do boi também gira meia dúzia de empresas de leilões de gado. A cada semana, são vendidas mais de 1 mil cabeças. E os grandes frigoríficos estão em todas. No último grande remate, as vendas somaram R$ 2 milhões.
Embora tenha elevado os preços, a corrida de frigoríficos e confinadores também trouxe complicações aos pecuaristas. O arrendamento de pastagens, que antes custava R$ 6 por cabeça, agora atinge até R$ 9. Dono de 7 mil animais espalhados em 3 mil hectares próprios e outros tantos alugados, o pecuarista Marcus Vinicius Lopes diz que os custos acompanharam os preços. "Viramos referência, mas ficou mais difícil e mais caro arrendar pastagem boa. Sem contar que está tudo cada vez mais longe", afirma Lopes, que é presidente do sindicato rural local.
O avanço do segmento industrial na criação de gado também teve outro efeito colateral: a disparada nos preços da terra. A consultoria AgraFNP apurou salto de 20% nas cotações de áreas de cerrado e de 3% nas pastagens de baixo padrão tecnológico. O consultor agronômico Pedro Dias diz que os preços das pastagens dobraram em 12 meses, para R$ 4 mil. Segundo ele, há pelo menos 30% de pastagens degradadas na região, o que explica a expansão dos aportes em recuperação das áreas.
Maior financiador oficial da região, o Banco da Amazônia (Basa) está animado com a "febre do boi". A carteira do banco federal soma R$ 500 milhões em operações de investimentos, como melhoria genética, recuperação, correção e conservação de solos. "Vivemos uma expansão ainda comedida, mas os pecuaristas começaram a investir na reforma das pastagens", afirma o supervisor Rinaldo Ribeiro. O Basa recebe consultas diárias sobre preços de terras e oportunidades de negócios em todo o sul de Tocantins, diz ele. "Querem saber, por exemplo, se o banco tem terras de execução de dívidas".
Mesmo sem a pressão por abertura de novas áreas para os grãos, a "corrida do boi" em Gurupi tem um preço ambiental. Sem recursos para ampliar a fiscalização, o chefe do escritório regional do Ibama, Cássio Baptistussi, admite o avanço do desmatamento para o cultivo de pastagens. "Fizemos três ou quatro fiscalizações neste ano, mas só temos agido a partir de denúncias". O Instituto de Natureza de Tocantins (Naturatins) não identificou aumento na concessão de licenças para desmatamento, mas à beira da rodovia BR-242, que liga Gurupi ao oeste da Bahia, é possível ver a abertura de áreas para a pecuária. A própria SPI abriu 300 hectares para plantar sorgo destinado ao gado confinado.