Setor mineral atrai grupo do Canadá
Mais de 17 milhões de toneladas de ferro-vanádio deverão deixar o subsolo do semiaacute;rido baiano e se transformar em riqueza para o município de Maracás, a 367 quilômetros de Salvador. A empresa canadense Largo Mineração, vencedora da licitação para exploração da mina, já começou a implementar o empreendimento que receberá um investimento da ordem de US$ 130 milhões e deverá faturar cerca de US$ 180 milhões por ano.
Quando a jazida entrar em plena atividade – o que deve acontecer nos próximos dois anos –, o município passará contar com uma receita de cerca de R$ 300 mil por mês. Enquanto o Estado deverá engordar os cofres não só com a arrecadação de tributos, como também com os royalties. “Por contrato, 4% da receita virá para os cofres do Estado.
Isso representa uma receita de R$ 13 milhões por ano”, disse o presidente da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), Paulo Fontana.
Além desses, a companhia, que detém 5% das cotas da mina, irá embolsar uma parte dos dividendos. “Durante a exploração, vamos participar da distribuição anual dos dividendos, que deverá elevar ainda mais nossa receita”, disse.
Vanádio
A mina de ferro descoberta pela CBPM é composta de quatro depósitos do minério com o teor de vanádio estimado como o mais alto do mundo (1,44%). Este tipo de minério usado na confecção de turbinas aeroespaciais, ferrovias, tubulações de gás e óleo e muitas outras outras peças de aço. Segundo o gerentegeral da Largo Mineração, Kart Menchen, nesse alto teor de vanádio confere ao aço maior resistência a corrosão, a abrasão e aumenta a sua resistência.
“Além disso, o minério de ferro com esse percentual de vanádio reduz o peso das peças sem perder em qualidade, o que agrega valor ao produto”, destacou.
Só para se ter uma idéia da qualidade do ferro de vanádio de Maracás, o de maior teor já descoberto até hoje, na África do Sul, tem um teor de 0,4%. O depósito do município baiano será a única mina do minério do Brasil.
No mesmo local, foi detectada também a existência de platina e paládio, o que deverá aumentar ainda mais os lucros para a empresa canadense e, conseqüentemente, para o Estado.
A mina deverá gerar 450 novos postos de trabalho. Kart Menchen afirmou que a expectativa é que para cada emprego direto criado, outros cinco sejam gerados durante o ciclo produtivo da jazida. A mina deMaracás tem produção prevista de cinco mil toneladas/ano e 80% do ferro vanádio terá como destino os mercados americano, canadense e europeu.
Flores
O anúncio das descobertas das jazidas traz alento para o município, atualmente sustentado economicamente pelo repasse de, aproximadamente, R$ 500 mil do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e pelo cultivo de flores subtropicais, cuja receita anual gira em torno de R$ 400 mil. Favorecido pelo clima ameno no inverno – que registra até 8 graus centígrado –, o município é fornecedor de flores subtropicais para Salvador e sul do Estado.
A alternativa econômica para os pequenos produtores rurais da região foi idéia do então prefeito Fernando Carvalho, responsável pelo lançamento do Programa Desenvolvimento da Floricultura. O projeto atual abrange 206 famílias, distribuídas em 8 associações, que produzem numa área de 198,5 mil metros quadrados, tanto em estufas, como em áreas residenciais, quintais e fazendas próximas.
Cada família tem um lote de 300 metros quadrados para administrar. Nessa área, é possível gerar uma renda superior um salário mínimo por mês. Nas estufas, são cultivadas 50 variedades de flores.
Além de flores, peixe, mel e frutas
A região onde brota o ferro-vanádio está encravada nas localidades rurais de Pindobeira, Água Branca e Porto Alegre, uma espécie de “oásis”, onde a água farta que abastece a Barragem de Pedras alimenta o solo e ajuda a piscicultura e a produção de hortifrutigranjeiros. A despeito dessa riqueza agrícola que estimula o cultivo de caju, mamão, manga, melancia e produção de doces e mel, Maracás, um dos maiores municípios do Vale do Jiquiriçá, a 350 km de Salvador, enfrenta uma série de contrastes agrícolas nos últimos anos.
Os reflexos da crise não afetaram de imediato o PIB per capita do município, que saltou de R$ 1.718,73, em 2003 para R$ 2.070, em 2004, e R$ 2.318,45, em 2005. Apesar do avanço, houve queda de posição no ranking baiano. De acordo com dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) divulgados esta semana, o município – que ocupava a 95ª posição no PIB baiano – não mais figura entre os 100.
Segundo maior produtor mundial de mamona, na década de 70 (atrás da África), e potencial produtor de café, algodão e sisal, o município foi “engolido” pela falta de tecnologia. Como num passe de mágica, os 20 mil hectares de mamona, responsáveis pela produção de 400 mil sacas anuais, os 4 mil hectares de sisal, 2 mil de algodão e mil de café desapareceram.
Expulsa da terra, a população rural, que representava 81% do município, marchou para a sede e inchou a cidade, atualmente com 70% dos 35 mil moradores.
“Essa inversão gerou um problema social, com muita gente sem ocupação e sem renda”, assinalou o secretário municipal de Agricultura, Júlio Rodrigues.
Nem sempre foi assim. Em 2000, por exemplo, Maracás foi um dos 100 finalistas do Prêmio Dubai das Melhores Práticas em Desenvolvimento Local, selecionado entre 530 inscritos de todo o mundo. O prêmio foi concedido pela municipalidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, em parceria com o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos.
Os estudos minerais sobre incidência de ferro-vanádio na região datam mais de 15 anos em Maracás e culminaram com a apresentação dos trabalhos durante o Consórcio do Jiquiriçá, no último dia 13 de novembro. A reunião teve como objetivo discutir o processo de exploração do minério no município, avaliando todos os aspectos do produto e suas implicações sociais, ambientais e econômicas.