Agricultoras rurais mostram que são artesãs de primeira
Glória Maria dos Reis Carmo tem 45 anos, é casada e mãe de seis filhos.
Laíse Santana Santos tem 19 anos, é solteira e não tem filhos.
Independentemente da idade e da vida familiar, as duas se identificam muito: elas são criativas, determinadas, valorizam o cooperativismo, a economia solidária e, por tudo isso, fazem parte da Rede de Mulheres Produtivas da Bahia.
Em diversos municípios do Estado, principalmente do semiárido, cerca 500 mulheres já fazem parte desse grupo que fundou a Cooperativa Rede de Produtoras da Bahia, sediada em Feira de Santana. A iniciativa conta com o apoio do Movimento de Organização Comunitária (MOC) e Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais.
Glória Maria é trabalhadora rural e mora no povoado de Miranda, no município de Santa Luz, na região sisaleira da Bahia.
É lá que milhares de conterrâneos dela sobrevivem em pedreiras artesanais, produzindo principalmente paralelepípedos usados em pavimentações de ruas, num árduo trabalho sem carteira assinada e salários fixos.
“Está sendo uma experiência muito boa, porque ajuda a gente a ganhar a vida. Todos os meus seis filhos ainda vivem com a gente em casa, sobrevivendo da roça, inclusive o mais velho, de 23 anos”, avalia.
Glória conta que, há três anos, ela e mais sete amigas resolveram investir no artesanato, produzindo peças em palha e sisal.
Mas elas não tinham sequer condições financeiras para comprar a matéria-prima. “Decidimos que, toda semana, cada uma ia colaborar com R$ 0,50 ou R$ 1.
Ninguém podia dar mais do que isso. Aí minha amiga Valmira Lopes de Souza, mãe de dois filhos, teve a idéia de vender bolo e arroz doce, todo domingo, numa barraquinha, no povoado. Aí conseguimos começar no negócio do artesanato”, lembra.
FEIRA – Glória Maria e as amigas lá do Miranda montam uma barraca todo sábado na feira livre de Santa Luz. Mesmo nos dias em que as vendas são fracas, o grupo recebe encomendas. “Uma coisa compensa a outra”, explica. A estudante Laíse Santana Santos, 19 anos, também é da zona rural e da região sisaleira.
Ela mora no povoado de Mandapólis, antiga Coréia, no interior do município de Retirolândia, e foi a grande incentivadora para a criação de um grupo de mulheres produtivas. Laíse concluiu agora o 2º grau e planeja fazer vestibular, em 2008, mas garante que nem imagina deixar o grupo de artesanato.
“É uma iniciativa que com certeza dá certo para ajudar na sobrevivência e jamais vai acabar.
Principalmente porque eu fui quem mais lutei para manter seis amigas no grupo”, frisa.
Laíse Santos é especialista em bordados, inclusive com fitas.
Para que os negócios realmente dêem certo, diz que é preciso proporcionar meios para que a Rede de Produtoras da Bahia tenham sempre a oportunidade de levar seus trabalhos para comercialização nas cidades.
“Comercializar no povoado é muito difícil. Santo de casa não faz milagre”, lamenta a estudante, queixando-se que os moradores de Mandapólis não dão muito valor ao artesanato que o grupo dela produz.
MERCADO – A comercialização na feira livre da cidade de Retirolândia é promissora. Em função da necessidade de conquistar o mercado, que o Movimento de Organização Comunitária e a Rede de Produtoras da Bahia passaram a promover a Feira das Mulheres Produtoras. Duas já foram realizadas, em 2007, no período do Dias das Mães e de Natal.
Uma terceira deve acontecer em maio de 2008, segundo as coordenadoras da rede.
* Para facilitar a compra de matéria-prima e evitar que as mulheres produtoras sejam vítimas de juros escorchantes no parcelamento de dívidas, há linhas de créditos específicas, como o Mulher Empreender, com crédito de até R$ 8 mil, com dois anos de carência e pagamento em até oito anos. Pelo Pronaf, o crédito pode ser de até R$ 9 mil, também com dois anos de carência e oito para pagar.