Boa safra e preço elevado ainda não tranqüilizam sojicultor
O carro roda por horas e a paisagem não muda: soja nos dois lados da estrada. É o cenário do chamado médio norte de Mato Grosso. Apesar do atraso no período de plantio, o ânimo dos produtores é bom com a possível produção deste ano.
As notícias que vêm de fora também são boas. Chicago, a meca formadora de preços, indica os maiores valores praticados em três décadas.
Tudo parece perfeito. Mas há apreensão no campo. A safra é boa, os preços também, mas a rentabilidade pode não ser.
"A soja está sendo paga por um dólar fraco e estamos pagando os custos internos por um real valorizado", diz Cirilo Ferst, que planta 6.000 hectares em Nova Mutum (MT).
Enquanto toma o café da manhã, Ferst interrompe a conversa para buscar uma calculadora e rapidamente começa a mostrar os perigos para os que não se cuidarem.
A soja está a US$ 17 a saca, um preço bom, diz ele, mas a maioria dos contratos foram feitos a US$ 11 a US$ 12.
A soja a esse preço puxa todos os custos para cima. A tonelada de adubo saiu de US$ 287, foi a US$ 380 e já há negócios a US$ 480. O frete para Paranaguá (PR), de US$ 70 por tonelada em 2006, está em US$ 110.
Com produção de 50 a 55 sacas por hectare, o produtor pode ter um lucro de 10 a 15 sacas, já que os custos ficam em 40 sacas, mas tem de aprender a fazer muitas contas, segundo ele.
Sobre dívidas passadas, Ferst diz: "Me cuidei nas compras e as dívidas não são comprometedoras". Mesmo assim, conta que comprou uma colheitadeira por R$ 700 mil em 2003, pagou metade e ainda deve R$ 800 mil. O pior é que a máquina vale apenas R$ 350 mil.
Assim como Ferst, Marlon Buss, da Vanguarda do Brasil, também está atento aos números. "Sou viciado em números e custos", diz. Para reduzir custos, trocou as camionetas do grupo por carros populares, não comprou máquinas em 2005 e 2006, apenas arrendou, assim como faz com a terra.
Dos 200 mil hectares plantados, só 40% são do grupo, que faz duas safras em 80% da área.
Para ele, a informação é o ponto forte. O grupo levanta custos de tudo: de gastos de tratores a diferenças de retornos entre a utilização de terra arrendada ou própria -esta demora 18 anos para ser paga com a renda da produção. "O que interessa é resultado financeiro, e não faturamento", diz
Em uma coisa Buss diz não economizar: na qualidade dos produtos. Com isso, consegue contratos especiais, como o da soja convencional, que rende até US$ 1,4 a mais por saca.
O engenheiro agrônomo Juscelino Jankoski, da Rural Consultoria, também de Nova Mutum, diz que as perspectivas para 2007/8 são boas, mas, se o produtor fizer todas as contas, desiste de plantar soja.
Nelson Vacari, da Araguaia Agrícola, confirma a situação difícil. Parte dos produtores -os que têm dívidas a saldar- não consegue crédito.