Sem assistência, cortador corre riscos
Pesquisadora afirma que falta de acompanhamento médico aos bóia-frias causa morte nos canaviais
Sem direito a exames médicos periódicos exigidos pela legislação e com a situação nos canaviais piorando a cada ano, a morte se tornou o limite no trabalho dos cortadores de cana-de-açúcar que trabalham no Estado de São Paulo.
A opinião é de Maria Cristina Gonzaga, 48, pesquisadora da Fundacentro (Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Medicina e Segurança do Trabalho), entidade ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego.
"A morte é o limite, porque não tem nenhum acompanhamento. Se tivesse [um acompanhamento médico], não morreria", afirma Gonzaga, da Divisão de Ergonomia e uma espécie de porta-voz da fundação contra a situação degradante de trabalho dos bóias-frias. Cristina é engenheira agrônoma, engenheira de segurança, ergonomista e mestre em engenharia agrícola.
FOLHA - De que forma o apoio do governo federal ao novo ciclo da cana tem incentivado o avanço no desrespeito às condições de trabalho nos canaviais?
MARIA CRISTINA GONZAGA - Ele [incentivo do governo] intensifica o trabalho. E o que significa a intensificação do trabalho? Maior produção. Esses trabalhadores ganham por produção. Se o trabalhador, na época da chuva, de janeiro a maio, precisa cortar 100 metros para conseguir dez toneladas [de cana], no inverno, ou seja, no período de seca, ele precisa cortar 300 metros para atingir as mesmas dez toneladas. Então o trabalhador passa a responder pela mudança climática sobre o salário dele, já que ganha pela produção por peso. A meta não distingue os períodos do ano.
FOLHA - A quais riscos esses trabalhadores estão sujeitos?
GONZAGA - São inúmeros. Têm os riscos químicos, que são os agrotóxicos, os herbicidas, os maturadores de cana. Há os riscos físicos, o calor, o frio, a umidade, a radiação solar. Têm os riscos mecânicos, como atrito e pressão, os biológicos, como bactérias, fungos, animais peçonhentos. Há os riscos organizacionais, como forma de pagamento, turno, jornada, pausa, normas de produção, metas a serem atingidas. E os operacionais, como postura, força, movimento repetitivo. Um cortador de cana dá um golpe de facão por segundo.
FOLHA - E o saldo?
GONZAGA - O grande problema é que todos esses riscos interagem. O que agrava muito é que tudo isso ocorre de forma sinérgica. O esgotamento deles [cortadores] vem da interação desses riscos. A morte é o limite, porque não tem nenhum acompanhamento. Se tivesse [um acompanhamento médico], não morreria.
FOLHA - Esses trabalhadores são submetidos a exames médicos?
GONZAGA - Que eu conheça, não. A legislação exige exame admissional, periódico e demissional. No que tenho encontrado no campo, o trabalhador não tem nenhum.
FOLHA - Isso porque muitos deles são temporários?
GONZAGA - Tem a ver, sim. Já encontramos trabalhadores com três tipos de contrato assinados em branco. Neles, o empresário pode escrever qualquer coisa. Tem pedido de demissão assinado em branco, termo de rescisão de trabalho assinado em branco. Quando você rescinde um contrato? Quando você tem algum problema. E lá [no papel em branco] o empregador pode justificar qualquer coisa, como uma meta não atingida. Eles assinam tudo em branco e depois o empregador faz o que bem entende.
FOLHA - E no caso dos cortadores de cana contratados? Também não há exames?
GONZAGA - Tenho visto que não. Tanto que os trabalhadores estão morrendo por parada cardiorrespiratória, um monte de questões que, se tivesse tido o exame, avaliando a qualidade da saúde, eles escapariam da morte. É que eles chegam totalmente carentes e desnutridos, e ninguém avalia se eles podem ou não cortar cana.
FOLHA - Há precauções por conta do calor?
GONZAGA - Ocorre um estresse por calor mesmo. O cortador se movimenta sem parar, sem a água refrigerada pra tomar. O EPI [equipamento de proteção individual] esquenta pra caramba, porque não é adequado às nossas condições de calor. Então [o trabalhador] deveria ter uma pausa bem programada. Recomendo pausas de 20 minutos a cada uma hora e meia de trabalho.
FOLHA - Mas isso, na prática, não ocorre.
GONZAGA - Isso é uma recomendação técnica que ninguém escuta.
FOLHA - Esses casos de desrespeito estão ligados à falta de organização dos trabalhadores?
GONZAGA - Sim, tanto é que as usinas estão se movimentando ao sudoeste e ao oeste do Estado de São Paulo, porque lá os trabalhadores não estão organizados.
FOLHA - Isso é uma forma de burlar a questão trabalhista?
GONZAGA - Óbvio, óbvio.
FOLHA - Se comparada com anos atrás, como está a situação hoje nos canaviais?
GONZAGA - Há quatro anos, eu conversava com os cortadores, e eles sabiam o que ganhavam e que tinham uma meta a ser cumprida, que tinham direito a receber o EPI. Agora eles não sabem mais nada. Um trabalhador me perguntou: "O que é meta, moça? O que é EPI? Nós não sabemos o que é isso". Acho que está piorando muito.
FOLHA - O Ministério do Trabalho tem gente suficiente para fazer essa fiscalização?
GONZAGA - Não. Não tem.
FOLHA - Tudo é precário nos canaviais?
GONZAGA - O que é bom? Eu não sei. Não consigo lembrar. Não sei te falar. Só vi coisa ruim, apesar de ser um setor que tem gerado emprego. Mas o que a gente vê hoje, nos depoimentos dos trabalhadores, são os serviços de RH [recursos humanos] das empresas só treinando os trabalhadores para cumprir as metas.