Usinas apostam em cogeração para reforçar faturamento
Em ciclo de preços baixos para álcool e açúcar, a receita gerada pela venda de bioeletricidade a partir do bagaço-de-cana começa a ganhar mais espaço na receita das usinas brasileiras. Em 2008, a estimativa é de que a geração excedente seja algo próximo de 6,9 milhões de megawatts/hora (MW/h) no acumulado da safra, 50% mais que em 2007. Além do ganho de escala, as usinas podem ter grata surpresa com o preço da energia, que tende a subir. "Os preços vêm aumentando a cada leilão, com tendência de continuar com essa escassez. O potencial está em torno de 10% de alta, o que significaria um valor um pouco acima de R$ 150 por MW/hora", avalia Rafael Schechtman, diretor do Centro Brasileiro de Infra-estrutura.
Em 2007, o grupo Usina da Pedra, que controla quatro usinas em São Paulo, gerou excedente de 100 mil megawatts/hora de energia, venda que representou 5,6% da receita total da empresa. "Foi mais representativo em 2007, quando os preços do açúcar e do álcool estiveram em baixa. Em 2006, quando esses dois produtos deram boa remuneração, a venda de energia representou 3,7% da receita total", compara o executivo do grupo, Matheus Carvalho. Ele acrescenta que o grupo tem ainda dois novos projetos de co-geração em andamento, que juntos vão triplicar a produção excedente de energia.
Segundo estimativas da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica) em 2007, as usinas brasileiras produziram na safra (considerando 4.600 horas de funcionamento) 18,4 milhões de MW/h, dos quais 13,8 milhões para consumo próprio e, 4,6 milhões para venda. "O excedente já representou um crescimento expressivo em relação a 2006, de cerca de 60%", avalia Onório Kitayama, consultor de Bioeletricidade da Unica.
Ele pondera que é difícil estimar uma média de quanto a venda de energia representa na receita das usinas, pois depende da época de venda, dos preços do açúcar e do álcool e do volume produzido por cada unidade industrial. "A avaliação é feita caso-a-caso. Conheço uma usina que previa para 2008 faturar R$ 230 milhões, dos quais R$ 30 milhões com bioeletricidade. Com a alta do preço da energia, o faturamento com esse insumo vai saltar para R$ 50 milhões", exemplifica o executivo da Unica, que preferiu manter o sigilo sobre o nome da empresa.
O maior investimento das usinas brasileiras em co-geração também ampliou a fatia de venda de caldeiras nos negócios da Dedini S/A Indústrias de Base, maio empresa brasileira de produção de equipamentos para o setor sucroalcooleiro. "No passado, a comercialização de caldeiras para co-geração às usinas representavam cerca de 5% do volume total de vendas da Dedini. Em 2007 esse percentual foi de 20%. Em 2006, foi de 10%", compara Ruddi de Souza, diretor-superintendente comercial da Divisão de Energia da Dedini.
Em 2007, a empresa comercializou 24 caldeiras (cada uma com capacidade para produção de 30 MW/h), mais que o dobro das dez unidades de 2006. Para 2008, segundo Souza, já há 30 caldeiras encomendadas.
Gargalo
Kitayama, da Unica, pondera que é possível que os projetos de co-geração previstos para saírem do papel a partir de 2009 para regiões de expansão da cana, como Goiás e Mato Grosso do Sul, tenham dificuldades de escoamento da energia excedente, caso não haja investimentos públicos em construção de ramais para escoar a energia gerada nas usinas, o que pela legislação atual é de responsabilidade do gerador. "Estimamos que há cerca de 200 usinas esperando resolver esse problema de conexão para tocarem seus projetos a partir de 2009", avisa.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 6)(Fabiana Batista)