Consolidação à vista na produção de longa vida
A fraude do leite nas cooperativas mineiras Casmil e Coopervale respingou nas indústrias de longa vida, já que, conforme investigação da Polícia Federal, esses grupos forneciam leite a empresas como Parmalat e Calu. Desde o início, o segmento refutou qualquer ligação com as fraudes. Em dezembro, dados do Instituto de Criminalística não confirmaram categoricamente a presença de soda cáustica e água oxigenada em 13 amostras de leite - sete de leite cru, cinco de leite pasteurizado e uma de leite longa vida - coletadas pela PF na Casmil e na Coopervale.
Para o Ministério da Agricultura, as fraudes foram problemas pontuais. Segundo Nelmon Oliveira, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal do ministério, análises de amostras de longa vida colhidas em várias regiões do país desde o incidente em Minas até agora não revelaram novos casos de fraude com soda cáustica e água oxigenada. Os produtos analisados foram processados antes do episódio da contaminação, conforme Oliveira.
E pouco mais de três meses após a fraude, que teria sido feita com o intuito de aumentar o volume de leite e o prazo de validade do produto, a Associação Brasileira da Indústria de Leite Longa Vida (ABLV) vem convidando jornalistas para conhecer empresas da área e mostrar o processo e os cuidados na produção do leite longa vida.
"A crise não tinha nada a ver com o leite longa vida", afirma Laércio Barbosa, vice-presidente da entidade. Segundo ele, o episódio revelou um "completo desconhecimento do que é a indústria do longa vida", que é "altamente desenvolvida" e movimenta R$ 7 bilhões no país. De qualquer forma, diz, o incidente deixou o consumidor preocupado e mais exigente. "Agora, ele está procurando marcas mais reconhecidas", afirma ele, que aposta na consolidação do segmento no país, hoje muito pulverizado, com mais de 100 marcas.
No Laticínio Jussara, em Patrocínio Paulista, no qual Barbosa é diretor comercial, os cuidados e análises do leite cru começam na fazenda do produtor. Na propriedade, antes de o leite ser coletado pelo caminhão-tanque, há medição da temperatura e o produto passa por teste rápido de acidez. Se estiver fora do padrão, afirma Barbosa, o leite não é recebido. Quando chega aos postos de captação, o leite passa por dez testes - para verificar PH, temperatura, densidade, gorduras, sólidos e acidez, entre outras checagens. Aprovado, o produto é resfriado e estocado em tanques. Depois é bombeado para carretas-tanque para transporte até a indústria.
Na indústria, os testes são refeitos - inclusive para verificar a eventual presença de contaminantes e fraudes -, uma vez que a carreta contém leite de vários caminhões de coleta misturados. Aprovado, o leite é novamente resfriado e estocado em silos isotérmicos. Só depois dessas análises é que o leite vai para o processamento. Para virar longa vida, o leite cru passa por uma ultrapasteurização a temperaturas de 130 a 150 graus por 2 a 4 segundos; depois, é resfriado à temperatura ambiente.
No Brasil, a produção de longa vida alcança 5,2 bilhões de litros por ano, segundo a ABLV. A entidade representa 31 indústrias (nacionais e estrangeiras) e centrais cooperativas responsáveis por 80% do total. (AAR)