Stephanes: País vendeu carne não-rastreada
O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, disparou “fogo amigo” ontem ao criticar os exportadores brasileiros de carne, insinuando que eles têm parcela de culpa no embargo europeu. Falando à Comissão de Agricultura do Senado, o ministro admitiu que o Brasil chegou a exportar carne bovina não-rastreada para a União Européia, antes de as novas regras do bloco entrarem em vigor, no dia 1º deste mês.
O ministro foi só farpas em direção às empresas certificadoras, dizendo que a situação delas “é um escândalo”. Para alguns parlamentares, o ministro foi imprudente e deu um tiro no pé em meio à negociação em Bruxelas. “Os frigoríficos exportadores venderam animais rastreados e não-rastreados à União Européia”, disse.
Stephanes afirmou que o governo brasileiro apresentará hoje, em Bruxelas, uma relação com 600 propriedades aptas a vender o produto para a União Européia. Todas elas, assegurou, auditadas pelos fiscais de seu ministério. Ele conclamou os frigoríficos exportadores a liderarem o processo de rastreabilidade dos rebanhos. “Se os frigoríficos não liderarem o processo de rastreabilidade, ele não acontece. É preciso fidelizar clientes, ou seja, fornecedores e pagar um adicional”, afirmou o ministro.
Segundo o ministro, as certificadoras nunca foram auditadas e uma inspeção feita recentemente pelo ministério eliminou 20 empresas de uma lista de 71 reconhecidas pelo Ministério da Agricultura. Mas Stephanes não mudou o foco principal: para ele, o embargo da UE é um exagero e o bloco está movido por interesses comerciais, não sanitários.
REAÇÃO — O presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), Marcus Vinicius Pratini de Moraes, reagiu duramente à declaração do ministro Reinhold Stephanes: “O governo deu um tiro no pé ao dar uma declaração como essa. O próprio Ministério da Agricultura está se dobrando ao embargo europeu”.
“Mas convém chamar o governo aos seus próprios serviços.
Acho bom que o ministro reconheça as deficiências do processo de rastreabilidade, mas cabe ao governo também cuidar das questões diplomáticas”, disse Pratini de Moraes.