Trabalhador ainda sofre com a crise do cacau
Mesmo com a descoberta de clones de cacaueiros resistentes à infecção da vassourade-bruxa, os trabalhadores que perderam emprego com a crise do cacau sabem que a lavoura tão cedo não vai absorver as 150 mil pessoas que dispensou, de 1989 para cá. Foi naquele final da década de 80 que a doença derrubou a produção de cacau de 400 mil toneladas/ ano para os pouco mais de 100 mil atuais. “Ainda não temos onde trabalhar, mas a região tem muita terra boa, abandonada nas mãos dos gananciosos”, diz Valdivino Martins Souza, 54 anos. A reforma agrária, segundo ele, é a esperança de muitos pais de família que estão desempregados.
Valdivino é um dos sem-terra do grupo ligado à Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag), que há 20 dias invadiram a Estação Experimental Joaquim Bahiana, da Ceplac, em Itajuípe, para cobrar agilidade do governo na reforma agrária. Nascido em Itamaraju, extremo sul do Estado, ele diz que prefere submeter seus seis filhos e três netos a uma vida dura, em baixo da lona, nos acampamentos à beira das estradas, a voltar à vida de catador de papel e de ferro, na periferia de Guarulhos (SP), onde morou entre 2006 e 2007.
“São Paulo é sonho. A realidade para o pobre analfabeto é a favela, no meio da malandragem e da droga”, diz ele, que morou num barraco de aluguel e passou fome, porque o dinheiro que tirava não dava para alimentar os filhos. Quando arrastava montanhas de papelão pelas ruas, lembra, só pensava na morte, que podia vir pelo atropelo no trânsito ou por uma bala perdida, disparada na briga entre bandidos e a polícia.
Regina Alves Mendes, de 34 anos, diz que cansou da solidão e dos 13 anos de miséria em Osasco, na Grande São Paulo, onde trabalhou como doméstica e o marido de pedreiro. No fim de semana, catava papel para melhorar a renda. Regina tem um filho de 11 anos e, como nada tinha a oferecer, ficou com medo de que os traficantes o “adotassem”. Cansou de ver morte de adolescentes na favela, por isso voltou, mas sabe que “na região não tem emprego para homem, quanto mais para mulher”. O marido voltou para São Paulo e ela ficou com os dois filhos, no meio dos sem-terra.
“Só não quero ser como meu pai, que esperou 10 anos em baixo da lona e morreu sem ter seu pedaço de chão”, lamenta.
TERRA – José Pereira dos Santos, de 51 anos, veio em 1976 de Jaguaquara, no sudoeste, para as roças de cacau, onde ficou até 1989, quando os fazendeiros começaram a demitir. Vagou por Ubatã, Ibirataia, Barra do Rocha e voltou para Jaguaquara.
Sem emprego, aventurouse por Goiás, onde trabalhou em chácaras. Retornou à Bahia, constituiu família, mas a falta de trabalho o levou para São Paulo, para tentar criar os sete filhos. Foi servente em uma firma que o mandou para o Rio de Janeiro. Como não podia levar a família, deixou o emprego e não arrumou mais serviço. De volta para perto da família, sonha com um pedaço de terra para trabalhar com os filhos.