Fundos pressionam preços do algodão na Bolsa de Nova York
O algodão é a "nova vedete" dos produtos agrícolas nas bolsas internacionais. A revoada dos fundos de investimento para as commodities fez o produto chegar a US$ 0,90 a libra-peso - valor esperado apenas para 2009 -, paralisando a negociação na Bolsa de Nova York (Nybot). Com isso, o cotonicultor brasileiro, que poderia aproveitar o momento, não conseguiu concretizar as vendas futuras. O chamado "ataque especulativo" pode desestimular a comercialização antecipada da safra e provocar uma onda de descumprimento de contratos. No caso do algodão, mais de 50% da atual temporada já foi vendida e pelo menos um terço da colheita do ano que vem. A antecipação atinge até a safra 2011/12.
"Com a desvalorização do dólar, os especuladores estão colocando recursos em commodities. Mas, nos últimos dias, olharam para a soja e o milho e acreditaram que estes mercados estavam saturados e que o algodão ainda tinha espaço para subir", diz Miguel Biegai Júnior, analista da Safras & Mercado. De acordo com ele, o movimento, completamente descolado do mercado físico, provocou uma freada nas vendas futuras destinadas à exportação. Em fevereiro, cerca de 30 mil toneladas das próximas safras tinham sido travadas. Neste mês o volume é cerca de metade.
O economista Fábio Silveira, da RC Consultores, acrescenta que está havendo um "descolamento dos preços das commodities". De acordo com ele, os fundos de investimento estão alocando uma parcela maior de recursos nos mercados futuros de commodities já que os de renda fixa e renda variável perderam atratividade - por conta dos juros dos Estados Unidos em queda e redução dos lucros das empresas americanas. Opinião semelhante tem o sócio da Horus Consultoria, Antônio Carlos do Rego Freitas. Segundo ele, os especuladores, que antes estavam aplicando em ações, agora estão fazendo posição em Nova York e Chicago, nas commodities de forma geral. "E o algodão estava no meio do caminho".
O analista da Safras & Mercado explica que a cotação de US$ 0,92 a libra-peso para o contrato com vencimento em maio não está de acordo com os fundamentos de mercado. Isso porque, a relação de estoque e consumo é de 45%. Ou seja, alta. Ontem, este papel foi negociado a US$ 0,81. O último relatório da Commodity Futures Trading Comission, dos Estados Unidos, mostrava uma posição comprada de 59 mil contratos nas mãos de fundos - de sexta-feira da semana passada.
"Um valor de US$ 0,60 a libra-peso já era considerado bom". De acordo com o analista, quando o algodão estava a US$ 0,70 a libra-peso, a estimativa era que a safra 2008/10 tivesse uma queda de 10% a 15% na área, uma vez que a soja e o milho estavam mais atrativos. "Mas a US$ 0,90 a libra-peso já dá para refazer as contas", afirma Biegai Júnior. O presidente da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa), João Carlos Jacobsen Rodrigues, diz, no entanto, que com o atual nível do câmbio e os preços dos insumos, nem US$ 0,90 a libra-peso cobririam os custos de produção da safra futura.
"É um ataque especulativo dos grandes fundos que não está somando em nada. Traz a falsa idéia de que os preços estão bons. E os insumos acabam subindo", afirma Rodrigues. Segundo ele, não há oferta para negócios a esses preços, uma vez que as tradings precisam depositar margem na Nybot por conta desta diferença entre o preço fixado e o atual. Na avaliação dele, o cotonicultor plantará a safra 2008/09 apenas para cumprir contratos - já estão negociadas antecipadamente 465 mil toneladas. Como boa parte da atual temporada foi negociada a US$ 0,58 a libra-peso, em média, Rodrigues diz que há risco de descumprimento de contratos. Mas ele acrescenta que a Abrapa está alertando os produtores que o "País demorou a conquistar uma credibilidade no mercado externo" e, portanto, não vale a pena uma atitude dessas.
Rodrigues acrescenta que o custo de hedge ainda é muito caro e, por isso, é preciso encontrar uma forma de o cotonicultor ter mais segurança. Por isso, a Abrapa pretende discutir uma forma de subvenção com o governo.
"O mercado fundamental perdeu a sustentação. Está a mercê dos fundos. Isso faz com que as empresas comerciais percam a referência de Nova York", explica Marco Antônio Aluísio, da Esteves Corretora. Segundo ele, as tradings estão com as posições de 2008 até 2010 compradas e vão administrar o que já fizeram, esperando a normalização.
Freitas lembra, no entanto, que a alta de Nova York, apesar de especulativa, se refletiu no mercado interno. O produto, que era negociado pelas indústrias a R$ 1,25 a libra-peso, agora sai 1,35 a libra-peso. Aliado a isso, segundo ele, o custo mais alto ajudou a elevar as cotações da pluma para cima. Apesar de toda a especulação, de acordo com ele, poucos produtores travando preço e muitos estão confusos em relação ao o que plantar.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(Neila Baldi)