O milagre da multiplicação do bijupirá
A fêmea do bijupirá nada em círculos em um dois tanques de maturação de cerca de seis metros de diâmetro, num galpão-laboratório da TWB, no terminal do ferry-boat, em São Joaquim. A barriga dilatada e a perda do apetite são sinais observados pela bióloga Patrícia Hougan como indicação de que a hora está próxima. “A gente pressente o momento com a mudança de comportamento, diz Andréia, com a experiência de muitos “partos”.
A qualquer momento, que acontece sempre no final da tarde, a fêmea vai virar de costas e desovar. Simultaneamente, um ou mais de um dos quatro machos que fazem a corte ejacula e disputa a paternidade dos três milhões de ovos esguichados na água.
Durante a madrugada, os ovos fecundados são recolhidos por Patrícia, embalados com gelo em caixas de isopor e embarcados no primeiro vôo da manhã para São Paulo.
Em 26 horas, os alevinos nascerão nos tanques da TWB no litoral sul de São Paulo, e no laboratório da empresa, em Ilha Comprida.
Este ritual de acasalamento em cativeiro já é comum também em Pernambuco e Espírito Santo.
Aconteceu pela primeira vez na América do Sul no dia 13 de outubro de 2006, data em que o biológo Gitonilson Tosta, coordenador do Projeto Bijupirá da Bahia Pesca, guarda na memória e num recorte da revista inglesa Fish Farmer, que noticiou o feito. A desova em cativeiro nos tanques da fazenda Oruabo, em Santo Amaro, foi fruto de um convênio entre a Bahia Pesca, a TWB e a Universidade de Miami, supervisionado pelo pesquisador americano Daniel Benetti.
Hoje, nos tanques-rede da unidade demonstrativa na Bahia Pesca, na praia da Ribeira, nadam “netos” desta prmeira desova, cuidados por pescadores treinados para o manejo, em parceria entre a Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap), da Presidência da República, e a Bahia Pesca.
NA FRENTE– Em Pernambuco, a empresa Aqualider saiu na frente e já obteve a primeira das cinco licenças ambientais requeridas para a produção do bijupirá em uma área a 12 quilômeros da costa de Recife, em mar aberto.
Segundo Felipe Suplicy, coordenador de maricultura da Seap, estão licenciadas ou em trâmite para os litorais de Penambuco, Bahia e São Paulo 263 hectares de áreas marinhas para a produção de 12.342 toneladas de bijupirá.
Na Bahia, são quatro áreas de 86,1 hectares para a produção de 3.340 toneladas. “Estamos preparando as bases para que o setor se desenvolva a partir de planos locais de desenvolvimento da maricultura” explicou Suplicy.
A TWB só está esperando a licença ambiental para colocar no mar os tanques-rede nos 54 ha requeridos, e, em um ano, começar a exportar o produto. O início da engorda será o começo de uma nova fase de um projeto iniciado em 2004 e que resultou na compra de um pacote de tecnologia da Universidade de Miami para todo o ciclo de reprodução, junto a parcerias com os governos federal, da Bahia e de São Paulo.
“Temos no Brasil condições de transformar o bijupirá no que o salmão representa hoje para o Chile, um dos principais produtos da pauta de exportação” , aposta Reinaldo Pinto dos Santos, presidente da TWB, empresa do ramo da construção naval e transporte marítimo e que há quatro anos investe neste novo projeto.
EXPORTAÇÃO – O presidente da TWB estima que em três anos poderá gerar emprego para cinco mil famílias e atingir a produção de 100 mil toneladas de pescado. A Bahia é estratégica para a empresa na fase de desova, por causa da temperatura mais alta da Baía de Todos os Santos, e, no momento da exportação, pela posição geográfica do Estado.
A idéia é fazer parcerias com pescadores, num formato a ser definido em convênio da Fundação Odebrecht, que tem experiência num projeto de desenvolvimento sustentável com pescadores no Baixo Sul do Estado.
Os projetos têm como contrapartida o envolvimento dos pescadores artesanais na nova cadeia de produção. Uma das empresas que também só está esperando a liberação da licença para produzir é a Bahia Aqüicultura, que guarda autorização para explorar 10 ha de área na Baía de Todos os Santos.
“Estamos prontos, só esperando a licença”, diz Pedro Fernandez, diretor da empresa que negocia convênio com a Bahia Pesca para a produção de alevinos e busca a certificação orgânica, em áreas que terão 5 kg de peixe por metros cúbicos de água. “Queremos produto para mercado que exige o controle ambiental na origem”.
No convênio com a Bahia Pesca, o excedente de alevinos será destinado a projetos desenvolvidos com pescadores artesanais.