Na prática, embargo da União Européia à carne continua
Passado quase um mês do fim do embargo europeu à carne brasileira, as exportações ainda não estão normalizadas. Como novas adesões à lista devem demorar pelo menos 60 dias, a previsão é que apenas em junho as vendas do Brasil para o bloco voltem. Agora, estariam ocorrendo embarques apenas de negócios fechados anteriormente. Com isso, desde o início da crise, no final de janeiro, o País terá perdido perto de US$ 300 milhões.
Quando comunicou o fim do embargo, o governo anunciou 106 fazendas aptas a exportar para o bloco. No entanto, parte das propriedades não era de gado de corte e foram descredenciadas. Com isso, atualmente, apenas 87 estabelecimentos podem vender gado para o abate destinado ao mercado europeu. A estimativa do mercado é que seriam necessárias pelo menos 3 mil fazendas. Novas inclusões na base de dados do sistema Estabelecimentos Rurais Aprovados no Sisbov (Eras) estão suspensas até que as empresas certificadoras sejam auditadas - para isso, os fiscais dos governos estaduais e federais serão treinados a partir da semana que vem.
"Dentro do quadro de aprovações, poucos frigoríficos têm chance de viabilizar atividade comercial e, diante da quantidade de animais ofertados, o preço da arroba é diferenciada, também inviabilizando a exportação", diz Antonio Camardelli, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec). Recentemente, o presidente do Minerva, Fernando Galetti de Queiroz, comentou, ao divulgar o balanço trimestral da empresa, que o prêmio ficaria em cerca de R$ 10 por animal. Camardelli diz que as empresas esperam que até julho o País tenha pelo menos "um número razoável" de propriedades - 2 mil propriedades. Mas ele acrescenta que antes do final do ano não haverá normalidade na quantidade exportada.
"Está tudo fechado. Não apenas pelo número de fazendas, mas também porque não são representativas no volume de embarques", diz o analista da Safras & Mercado, Paulo Molinari. Segundo ele, não há informação de exportações dos frigoríficos. "Talvez estejam cumprindo embarques de negócios já fechados", diz. Opinião semelhante tem Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria. Na sua avaliação nenhum contender sairá enquanto não forem pelo menos 600 fazendas. O diretor da AgraFNP, José Vicente Ferraz, acrescenta que a expectativa é que se confirme a projeção feita pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), na semana passada, que as exportações de carne in natura para a União Européia caiam a zero em março por falta de matéria-prima. Para os analistas, talvez as empresas de Minas Gerais, estado que detém o maior número de propriedades inscritas, conseguirão exportar.
Por meio de sua assessoria, o Minerva informou que as exportações para a União Européia estão reduzidas. A empresa espera que até julho entre quatro mil a cinco mil fazendas estejam cadastradas ao Eras, chegando a 10 mil no final do ano. "O diferencial de preço vai motivar outros fazendeiros a se adequarem ao sistema", afirmou Queiroz durante a divulgação do balanço trimestral. Já o Marfrig, também por meio de sua assessoria, informou que continua com a estratégia anterior - a mesma que era utilizada pelo JBS - de envio de carne in natura para a União Européia por meio de suas unidades fora do Brasil.
Sem os embarques para a União Européia - que respondem por cerca de 30% da receita obtida pelo Brasil com carne bovina - a saída, de acordo com o diretor-executivo da Abiec, é buscar novos mercados. Entre eles, estariam a China e a ampliação do número de indústrias habilitadas para exportar para a Rússia, retomando a venda de estados proibidos quando da ocorrência da febre aftosa em Mato Grosso do Sul, em 2005.
O sócio-diretor da Agripoint, Miguel Cavalcanti, lembra, no entanto, que mesmo com o redirecionamento das vendas para outros países, as empresas estão perdendo. Segundo ele, o preço de um quilo de corte nobre, que seria comercializado a US$ 40 na Europa sai a US$ 15 em outros mercados.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(Neila Baldi)