Pecuaristas dizem que venda de gado para UE não dá lucro
Mais frigoríficos anunciaram ontem a retomada das operações para a União Européia. A unidade do Bertin em Ituiutaba, em Minas Gerais, recomeça o abate amanhã, com 1,2 mil animais - outros 600 bovinos serão abatidos no sábado seguinte. Também amanhã, o Frisa, do Espírito Santo, reinicia as exportações para o bloco, com 500 animais abatidos e número igual no final de semana seguinte, segundo informações não oficiais. Na quarta-feira, o Independência havia comunicado o abate de 429 bois.
Apesar da retomada das compras, os produtores estão reclamando. O preço pago pelo gado rastreado não estaria pagando os custos. A diferença entre o animal não inscrito e do incluído na base de dados do sistema do Estabelecimentos Rurais Aprovados pelo Sisbov (Eras) é de aproximadamente R$ 8 por arroba - um prêmio próximo a 12%. Mas, para os pecuaristas, deveria ser o dobro. Ontem, o preço médio da arroba no Triângulo Mineiro, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP) era de R$ 71,90 a prazo, com escalas de seis dias.
O estado de Minas Gerais é o que tem a maior quantidade de fazendas inscritas no Eras. Das 97 propriedades aprovadas em todo o País, 80 estão na região. A maior parte dos animais têm saído de municípios próximos às unidades dos frigoríficos, do Triângulo Mineiro, da região do Vale do Mucuri e do entorno de Jaíba, no Norte.
Sem disputa
O pecuarista Francisco José Zuba Marcondes, do município de Francisco Sá, no Norte do estado, faz a rastreabilidade da sua propriedade e da de seus filhos desde que o sistema foi criado. Mas reclama. "Não está havendo uma disputa pelos animais porque há dificuldade de os frigoríficos terem um dia para reunir o gado de várias fazendas", diz. Segundo ele, seus animais foram comercializados a R$ 74 a arroba quando, na sua avaliação, deveriam estar em R$ 90. No período do embargo da União Européia, que durou cerca de um mês, a arroba era negociada a R$ 66. Marcondes acrescenta que no Triângulo Mineiro, o preço praticado pelo animal inscrito no Eras está em R$ 82 a arroba. As fazendas da família ficam a cerca de 85 quilômetros da unidade do Independência e quase 700 do Mataboi e do Bertin. Todas as propriedades foram vistoriadas pelos técnicos da União Européia. Marcondes vendeu 200 animais e na primeira quinzena de abril deve ter novos lotes. "Talvez até lá tenha melhorado o preço".
Francisco José Marcondes Júnior, filho do patriarca da família, acrescenta que além dos custos com a adequação ao sistema, há outro que poderá dificultar a continuidade: a falta de bezerros. A partir do ano que vem, apenas animais nascidos em propriedades rastreadas poderão ser engordados nas fazendas aptas a exportar. Júnior diz que atualmente, 98% de seus fornecedores não rastream os animais.
Bertin
O frigorífico Bertin não quis informar quanto está pagando pelos animais. Em comunicado, a empresa anunciou a retomada das operações, afirmando que a produção, de cerca de 200 toneladas de carne in natura, será destinada para a Itália nas próximas semanas.
Desde o embargo, iniciado no final de janeiro e encerrado no dia 27 de fevereiro, a empresa havia direcionado a carne in natura para outros mercados em potencial, inclusive o interno. Segundo o comunicado do Bertin, no período, não houve queda no volume de produção e as exportações para os demais países continuaram, normalmente.
A unidade de Ituiutaba tem capacidade de abate para 1,2 mil cabeças diárias.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 5)(Neila Baldi)