Escassez de boi já provoca demissões em frigoríficos

03/04/2008

Escassez de boi já provoca demissões em frigoríficos


 

Com dificuldades para manter as margens por causa da alta dos preços do boi gordo e da queda do dólar, e trabalhando com ociosidade de 40% a 50%, em média, devido à escassez de animais para abate, frigoríficos de carne bovina do país começam a demitir. E o movimento pode se intensificar se o quadro atual, agravado pelas restrições da União Européia à carne brasileira, perdurar. 

No Rio Grande do Sul, o Mercosul dispensou 250 pessoas na unidade de Capão Leão, no sul do Estado. Na mesma localidade, o Extremo Sul, que presta serviços de abate e desossa para o Mercosul, demitiu 150. No Paraná, o Margen dará aviso prévio a 200 de seus 500 funcionários em Paranavaí. Houve informações de que o Marfrig também teria demitido. Procurada, a empresa informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que "após sua abertura de capital, em junho de 2007, o Marfrig já realizou 14 aquisições, o que exige a padronização de práticas e procedimentos, complementada por ajustes no quadro funcional" . Assim, demissões ocorridas não teriam relação com ociosidade nas plantas. 

Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes do Rio Grande do Sul (Sicadergs), Ronei Lauxen, com as novas dispensas no Estado o número de trabalhadores no segmento já caiu de 9 mil para cerca de 6,5 mil desde o fim de 2006. E a situação pode piorar. 

No Mercosul, que só no Rio Grande do Sul tem cinco frigoríficos, a unidade de Capão do Leão ficou com pouco mais de 200 empregados que trabalharão apenas na desossa. Segundo o presidente da empresa, Mauro Pilz, em seis meses haverá uma reavaliação do quadro para definir se os abates serão suspensos em outra unidade. O Mercosul tem capacidade para abater 70 mil cabeças/mês no Estado, mas vem abatendo 30 mil. O frigorífico também tem plantas no Paraná (duas), Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, e neste ano inaugura a operação em Tucumã, no Pará. 

Com capacidade para abater 330 animais por dia, o Extremo Sul vinha trabalhando desde fevereiro só com desossa e em média duas semanas por mês, explicou o diretor José Alfredo Knorr. Com as demissões, restaram 120 funcionários, mas em 60 dias a empresa vai reavaliar a situação e mais 30 pessoas poderão ser afastadas, admitiu. 

De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação da região de Maringá, Rivail Silveira, o frigorífico Margen alega não encontrar boi para abate por isso decidiu dar aviso prévio a 200 de seus 500 empregados de Paranavaí. "Eles estão dizendo que, se em 30 dias as coisas mudarem, vão rasgar o aviso e manter o pessoal", contou o sindicalista. 

Procurada, a direção do Margen em Paranavaí não comentou o assunto e a diretoria de São Paulo passou a tarde em reunião. Segundo Silveira, a unidade tem capacidade para abater 800 animais por dia, mas estaria matando apenas cerca de 1,8 mil por semana. 

A escassez de boi gordo, que fez a arroba acumular alta de 37,79% em 12 meses, segundo o indicador Esalq/BM&F, reflete um movimento que especialistas chamam de "mudança de ciclo" da pecuária de corte. Tal mudança decorre do descarte de matrizes nos últimos anos, o que levou a uma forte queda na oferta de animais para abate no país. 

Para José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, esse é um quadro que deve perdurar "pelo menos até 2009". Além da matéria-prima mais cara, a margem dos frigoríficos na exportação de carne bovina também caiu por causa do dólar fraco, observa Alcides Torres, da Scot Consultoria. Uma fonte do setor exportador diz que as empresas só têm conseguido repassar de forma gradual a alta da matéria-prima nas exportações. 

As restrições da UE à carne brasileira, sob alegação de falhas no sistema de rastreamento do gado, ajudaram a agravar o quadro do mercado de boi. "O Brasil perdeu o cliente que paga bem", afirma Ferraz, segundo quem há empresas abatendo dia sim, dia não. Segundo ele, nesse cenário mais competitivo, as empresas que têm produção concentrada em uma região e não fabricam industrializados "vão sofrer mais" que aquelas que têm plantas espalhadas por diferentes regiões do país. 

Ferraz concorda com o presidente da JBS-Friboi, Joesley Batista, que disse esta semana que 2009 deve ser um ano de "oportunidades", já que empresas menos estruturadas podem não sobreviver num mercado mais competitivo e podem vir a ser compradas por concorrentes. 

A escassez de gado para abate trouxe novamente à tona críticas às exportações de gado vivo pelo país, que têm saído pelos Estados do Pará e Rio Grande do Sul. No momento em que empresas gaúchas operam com ociosidade superior a 50%, as vendas externas de boi do Rio Grande do Sul são retomadas. No domingo, foram embarcados 9 mil animais para engorda e abate no Líbano. 

"Estamos exportando um produto sem valor agregado, com prejuízos também para outros setores que usam matérias-primas derivadas do gado, como a indústria coureiro-calçadista", disse Ronei Lauxen, do Sicadergs , para quem as vendas de animais vivos ao exterior agravam a situação doméstica. Em 2005 e 2006, 110 mil bovinos já haviam sido embarcados no porto de Rio Grande e, no ano passado, foram mais 10 mil. "Os animais que saíram em 2006, com um ano e meio de idade, estão fazendo falta agora", diz o diretor do Extremo Sul, José Alfredo Knorr. 

O problema inclui, ainda, uma disputa de preços entre frigoríficos e pecuaristas. Conforme o coordenador da comissão de pecuária de corte da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Carlos Simm, os criadores estão recebendo, na venda ao exterior, o equivalente a R$ 2,50 por quilo de animal vivo magro, ante R$ 2,25 a R$ 2,40 pelo boi gordo no mercado local. 

Péricles Salazar, presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), faz coro com as queixas dos empresários gaúchos e diz que a entidade já pediu à Receita Federal que estude taxar as exportações de gado vivo para coibir a prática.