A difícil tarefa de quebrar coquinho artesanalmente

07/04/2008

A difícil tarefa de quebrar coquinho artesanalmente

 

Bater o coco palmeira é uma tarefa muito rudimentar. Além da colheita manual do coquinho feita diariamente pelos homens, as mulheres “batem” o coco em uma operação arriscada. Sentadas num banquinho de madeira ou sobre um pedaço de pedra, até mesmo no chão, no quintal de casa, elas seguram o fruto na palma de uma das mãos e o golpeiam com um pedaço de pau de biriba. Com apenas um golpe, a casca verde externa se solta do fruto. Depois, com uma faca, o coco é limpo (raspado) para a retirada do excesso de fibras. Tudo é feito manualmente.

A betoneira, única no processo, é usada no depósito do pequeno exportador Nadilton Couceiros, na cidade de Valença, e serve apenas para lavar o coco.

Depois, os coquinhos vão secar ao sol. “Tudo é feito artesanalmente.

Desde a cata do coquinho no mato, seleção até a secagem”.

No povoado de Itiúca, a 7 km do município de Nilo Peçanha, essa habilidade de “bater” o coco, dona Maria Oliveira, de 53 anos, conhece há oito anos. São pessoas iguais a ela que, no processo de beneficiamento, batem e limpam os coquinhos.

ESFORÇO – A rotina começa cedo.

Às 5 horas da manhã, dona Maria já está de pé. “Entre as tarefas da casa e uma ruma de coquinho, vou me dividindo, mas passo a maior parte do tempo batendo coco. Eu gosto e nunca tive um acidente”, conta. Dona Maria bate cerca de três mil coquinhos por dia e ganha R$ 6 para bater mil coquinhos. É pouco, mas muito mais do que a cata da piaçava proporciona para ela e outras mulheres da localidade.

Foi batendo coco que dona Maria conseguiu construir sua casa de alvenaria. Assim como muitas famílias de Itiúca, ela trocou o serviço de bater coquinhos por material de construção. “Eu morava num barraco de papelão.

As paredes eram firmadas com varas. Comecei a bater coquinho e com esse trabalho construí minha casa de tijolos, ainda comprei geladeira, televisão, sofá, rádio e DVD”, conta, sorridente, dona Maria, que bate oito mil coquinhos em três dias.

Ela conta que recebe R$ 18 no dia quando bate três mil coquinhos.

“Com o coquinho, eu ganho mais do que fazendo pente de piaçava. Semana passada, recebi R$ 80 batendo coquinho no quintal de casa, de segunda a domingo.

Penteando as fibras da piaçava, só ganho R$ 5 no dia. Batendo coquinho, troquei por material de construção e hoje tenho minha casa com três quartos, uma cozinha, uma sala e um banheiro”, disse dona Maria.

SONHOS – Rosângela Oliveira Soares, de 39 anos, é filha de dona Maria Oliveira. Com quatro filhos e dois netos, Rosângela quer construir sua própria casa. Para isso, a agricultora já está juntando material de construção em troca de bater coquinho.

“Na minha casa, todo mundo bate coquinho. Meu marido e cunhado vão catar nas roças. Fico com meus filhos batendo coco. A gente bate até 3.500 coquinhos em um dia. Já troquei meu fogão a lenha pelo de gás e agora vou construir minha casa”, espera.

Na casa de Antônio Rosário Araújo, 52, a rotina não é diferente.

Ele e dois filhos também estão na atividade. “Bato de três e quatro mil coquinhos por dia. Dá para ganhar até R$ 200 na semana.

Não dá mais para sobreviver da pesca e da coleta da piaçava, só quando tem”, afirma Rosário.

Para Antônio Rosário, a tarefa de catar coquinho surgiu como uma alternativa que começou a gerar renda. “Hoje é o que me dá o pirão”, completa.