O negócio é catar coquinho
Se alguém já mandou você “catar coquinho”, não fique chateado.
Catar coquinho hoje não só alimenta como garante a sobrevivência de mais de 200 famílias no baixo sul do Estado.
Coquinho em quantidade para catar só tem mesmo na Bahia, e é isso o que estão fazendo mais de 600 pessoas que trabalham nas roças entre os municípios de Cairu, Nilo Peçanha, Ituberá e Camamu, sobrevivendo da cata do coco palmeira da piaçava (Attalea funifera Martius).
O responsável por essa revolução é um pequeno exportador, Nadilton Couceiros de Matos, que há oito anos exporta para o Cairo, no Egito, e a Turquia, 52 toneladas do coquinho via porto de Salvador, a cada três meses.
ETAPAS – Para chegar ao Egito, norte da África, os coquinhos são acondicionados em dois contêineres e, de dois em dois meses, seguem de navio para Port Said, na cidade do Cairo, no Egito.
São 30 dias de viagem, mas, antes de chegar a Port Said, segundo maior porto egípcio, o produto passa por várias etapas.
“O coquinho é catado no chão em diversas propriedades da região.
Depois passa pelas mãos das batedoras, são limpos e coletados.
Entro em variantes, estradas vicinais de barro e mata adentro para coletar”, diz Nadilton Couceiros, que é comerciante de material de construção em Valença.
Segundo Tito Barbosa, analista de exportação, em Salvador, antes de os coquinhos partirem de navio para o Egito, toda a documentação é visada pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, que fica em São Paulo, e autorizada pela embaixada árabe no Rio de Janeiro.
A carga é inspecionada pelo Ministério da Agricultura no Porto de Salvador e liberada pela Receita Federal. “O Nadilton faz a coleta e o tratamento em Valença e envia, de caminhão, para o terminal em Salvador; chegando aqui; nós contratamos o terminal de cargas e fazemos a estufagem no contêiner, chamamos a Agricultura para vistoria, depois a empresa de fumigação, que coloca o brometo de metila, para matar as pragas. Em seguida, apresentamos os documentos à Receita Federal para liberação da carga”.
A mercadoria vai para Hamburgo, na Alemanha, e faz transbordo em outra embarcação, chegando ao destino, que é o Port Said, no Egito, após 30 dias do embarque em Salvador”, contou.
MARFIM – O coco palmeira é uma matéria-prima alternativa ao marfim do elefante, já que é produzida a partir dos cocos da piaçava e tem cor, peso e dureza iguais ao marfim do elefante. Por isso, são cada vez mais utilizados pelos artesãos e fábricas de jóias em todo o mundo, gerando empregos diretos e indiretos.
“Este ‘marfim’ é uma alternativa prática, pois se parece com o de origem animal, é extremamente duro, permite bastante polimento.
As fábricas de artesanato do Egito e da Turquia empregam muita gente, e muitos artesãos comercializam os produtos nas ruas”, frisou Nadilton Couceiros.
As fábricas de artesanato do Egito e da Turquia, por exemplo, usam a casca dura do coquinho para fabricar botões, anéis, colares e rosários (ou terços). “Coleto de seis a sete toneladas por semana, mas a cultura é sazonal, de fevereiro a abril. Às vezes se estende até maio ou junho. Normalmente, as pessoas começam a coletar no início da Quaresma”, diz.
EXPERIÊNCIA – O comerciante de Valença percebeu que o coquinho que não servia para os donos das roças de piaçava para ele passou a ter valor. Por experiência, em 1999, colocou 50 kg de coquinho numa caixa de sapatos e enviou de avião para o Cairo. O custo era alto, mas o mercado cresceu e a demanda pelo coquinho aumentou.
“Depois, pediram mais e mandei 60 kg, depois, mais 100 kg, somente para testes. Comecei a exportar uma tonelada, mas o frete de avião era caro. Passei a exportar de navio de três a cinco toneladas e o frete diminuiu”.
Em 2007, foram 400 toneladas do coco palmeira para o exterior.
O agora pequeno exportador é um desbravador do mercado árabe e também pioneiro nessa atividade no Estado.
BAIXO CUSTO – Explorada sob regime extrativista desde os tempos do Império, essa espécie de palmeira nativa é uma fonte de renda promissora, em função do baixo custo de produção. Afinal, a Attalea funifera Martius só ocorre na Bahia, numa faixa de 60 km litoral adentro, com maior concentração na região que vai de Valença a Porto Seguro.
Nas roças, o maior emprego do coco seco da piaçava era como semente para a formação de mudas, também fonte alternativa de energia, quando empregada como carvão ou mesmo na queima direta em forno industrial, tendo efeito similar ao carvão de pedra.
“O que fiz foi agregar valor ao coquinho que ficava no chão e se perdia no mato e hoje é o sustento de muitas famílias”, destacou Nadilton Couceiros.
SOBREVIVÊNCIA – Com uma pancada de podão se derruba um cacho de coquinhos do alto da palmeira. É um trabalho árduo e, por isso, os homens vão para a roça arrancar e catar o coquinho. Às mulheres cabe a tarefa de bater com o pau de biriba e limpar com a faca os coquinhos para retirada da casca e, para isso, elas recebem R$ 6 pelo milheiro.
A atividade, que passou a ser uma alternativa de ocupação e renda para quem já vive de fabricar pentes de piaçava, envolve famílias inteiras. Em Cairu, Nilo Peçanha, Ituberá e Camamu, quem não vive da pesca ou de fabricar pente de piaçava vive de catar coquinho de palmeira.
As famílias envolvidas na cata do coquinho recebem R$ 25 pelo milheiro. O quilo do coquinho é exportado por R$ 0,30. Uma tonelada do produto chega a R$ 300.
“Tirando os custos, já que as despesas são 50% do faturamento, consigo renda líquida de cerca de R$ 3,5 mil a cada dois meses.
Assim, pago a faculdade de meus três filhos e fico feliz em criar alternativa de renda para essas famílias”, comemora o pequeno exportador de Valença.
No baixo sul, entre os municípios produtores de piaçaveiras, destacam-se Cairu, Ituberá, Canavieiras, Nilo Peçanha, Ilhéus, Una, Belmonte, Camamu, Santa Cruz Cabrália, Maraú, Valença e Itacaré. No Recôncavo, Santo Amaro, Cachoeira, Maragojipe, Jaguaripe e Nazaré.