"Biocombustíveis são crime", diz ONU

15/04/2008

"Biocombustíveis são crime", diz ONU

 

A produção em massa de biocombustíveis representa um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos, declarou ontem o relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler. Os críticos dessa tecnologia argumentam que o uso de terras férteis para cultivos destinados a fabricar biocombustíveis reduz as superfícies destinadas aos alimentos e contribui para o aumento dos preços dos mantimentos.
Ziegler pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que mude suas políticas sobre os subsídios agrícolas e deixe de apoiar apenas programas destinados à redução da dívida. Segundo ele, a agricultura também deve ser subsidiada em regiões onde se garanta a sobrevivência das populações locais.
Segundo reportagem da BBC Brasil, o presidente do Banco Mundial (Bird), Robert Zoellick, e o diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, defenderam domingo a adoção de medidas urgentes para conter a atual inflação de alimentos. “Temos agora que colocar nosso dinheiro onde está a nossa boca, para que possamos colocar comida em bocas famintas”, disse Zoellick, usando uma expressão idiomática da língua inglesa que significa algo como não ficar apenas no discurso, mas tomar uma ação.
Os comentários dos dois líderes foram feitos na entrevista coletiva que marcou o encerramento da reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, em Washington, domingo.
MOBILIZ AÇÃO– A crise alimentar que ameaça o planeta desencadeou ontem apelos por uma mobilização internacional, como o lançado pela França na União Européia para que o bloco aumente sua produção agrícola, enquanto os Estados Unidos prometem medidas urgentes de ajuda.
“Em um mundo onde será necessário produzir mais e melhor para alimentar nove bilhões de habitantes, é preciso que todos se esforcem, inclusive a Europa”, afirmou o ministro francês da Agricultura, Michel Barnier, em uma reunião com seus colegas da União Européia (UE) em Luxemburgo.
Barnier lembrou o “contexto grave de crise”, marcado por violentos protestos no Haiti e em países da África.
O FMI advertiu neste fim de semana que, se a inflação continuar subindo, “centenas de milhares de pessoas vão morrer de fome”. Para o ministro francês, cujo país é o principal produtor europeu, a UE deve continuar sendo “uma potência agrícola forte”, e não reduzir seu orçamento para o setor a partir de um corte dos subsídios, como pede a GrãBretanha.
Segundo Michel Barnier, é necessário “produzir para alimentar”, uma maneira de dizer que a UE deve limitar o cultivo de biocombustíveis extraídos de vegetais – que os 27 países se comprometeram a desenvolver para combater as mudanças climáticas –, com o objetivo de não reduzir a área cultivável destinada aos alimentos.
A França quer “reorientar as ajudas ao desenvolvimento e à cooperação (da UE) para a agricultura”, setor que “há 30 anos” foi relegado à margem das prioridades européias, afirmou.