Repovoar para não mais faltar
No distrito de Acupe, a 16 km de Santo Amaro (a 71 km de Salvador), a marisqueira Maria das Graças Carvalho, 50 anos, 43 dedicados à “cata” ou à “panha” de crustáceos, admite: “O caranguejo sumiu. Antigamente, pegava sacos cheios, davam até 15 cordas com dez caranguejos cada uma. Hoje só tem pequenos, sem valor comercial”.
Maria das Graças e 500 famílias de Acupe, que possui cerca de 12 mil habitantes, serão beneficiadas com o Projeto Puçá, que pretende recuperar a população de caranguejo-uçá (Ucides cordatus), o mais importante crustáceo do litoral do Brasil.
O aparecimento de fungos, ainda em estudos pelos biólogos, e a captura predatória levaram o Estado, que já foi o terceiro maior produtor do País, com cerca de 620 toneladas anuais, a ter praticamente dizimada sua população de caranguejo.
FÊMEAS COM OVOS – Outra ação considerada danosa é a prática da maioria dos catadores de não respeitar o ciclo reprodutivo da espécie. “Eles comercializam até as fêmeas com ovos, além de caranguejos ainda bem pequenos.
Os catadores sentem os impactos depois do quase desaparecimento do caranguejo-uçá”, diz a bióloga Kelly Cottens.
Com o Projeto Puçá, a população de caranguejo-uçá deve ser recuperada em três anos. Esta é a previsão da Bahia Pesca, empresa de incentivo à aqüicultura e pesca no Estado, que, em parceria com o núcleo de pesquisa do Grupo Integrado de Aqüicultura e Estudos Ambientais (GIA), está desenvolvendo o projeto de repovoamento da espécie, além de ações de conscientização ambiental junto a marisqueiras, catadores, pescadores e comerciantes.
Uma equipe do GIA foi deslocada de sua base em Curitiba até a Fazenda onde os trabalhos tiveram início.
IMPORTADO – O comércio de caranguejo ainda é extremamente informal, desenvolvido de forma artesanal e geralmente não sujeito a nenhum controle estatístico mais rigoroso. Há cerca de cinco anos, comerciantes dos bares de Salvador passaram a importar crustáceo do Pará para manter o estoque da iguaria. A unidade, vendida a R$ 1,50, agora não sai por menos de R$ 3,50.
Em alguns restaurantes, o caranguejo saiu do cardápio. “Tiramos porque o cliente pedia e não tínhamos para servir. Não temos de quem comprar porque hoje o pescador só traz do mangue a lama”, lamentou o gerente de restaurante Neylon Nascimento.
A captura de caranguejos só é permitida pela legislação brasileira quando o animal tem mais de 6 cm de comprimento de carapaça, o que só é atingido após o quinto ou sexto ano de vida.
HABITAT – Enquanto cresce a procura pelo caranguejo, o seu habitat sofre com a ocupação desordenada das áreas estuarinas, e o desmatamento dos manguezais em função da agricultura e criação de camarões, fato que já reduziu a um terço o espaço natural do caranguejo.
Para agravar a situação, o preço do crustáceo, sempre em alta, fez surgir novas técnicas de captura, como as “redinhas”, que prendem, indiscriminadamente, fêmeas e animais pequenos, impróprios para o consumo.
O trabalho começou a ser realizado em parceria com a Colônia de Pesca Z-27, do Acupe, com quase dois mil associados. “Antigamente, com quatro horas de mangue, o catador fazia 20 cordas.
Todos grandes e só machos.
Hoje não se pega nem caranguejo de andada. Por isso, esperamos o sucesso desse projeto, pois a cata do caranguejo é a sobrevivência da maioria das famílias”, ressalta o presidente da Colônia, Carlos Augusto dos Santos.
A IDÉIA – O Puçá começou a ser desenvolvido pela Bahia Pesca em setembro do ano passado, quando foi implantado um laboratório de reprodução do caranguejouçá na Fazenda Experimental Oruabo, em Acupe.
Na unidade de pesquisa da Bahia Pesca, as fêmeas com ovos e as larvas do caranguejo são preservadas em tanques especiais, com a assistência de biólogos, para assegurar a reprodução e o repovoamento da espécie, com a liberação, posteriormente, em ambiente natural.
O primeiro repovoamento oficial de caranguejo-uçá no Estado foi realizado em março, no Portinho de Acupe, quando foram liberadas cerca de 200 mil larvas de caranguejo. Entre as primeiras providências do GIA foi estabelecer um programa de monitoramento do ciclo reprodutivo do caranguejo-uçá naquela região.
Mesmo antes do fim dos trabalhos de instalação do laboratório, um lote de fêmeas de caranguejo foi capturado por catadores profissionais e colocado em tanques de eclosão. Com este lote em mãos, ficou decidido que um primeiro cultivo seria realizado como forma de testar o sistema e suas condições.
No projeto, foi coletado cerca de 1,3 milhão de larvas aptas recémeclodidas para o cultivo. O cultivo se estendeu por 18 dias e, ao fim, cerca de 200 mil megalopas foram produzidas.