Batata, mais uma vez, é saída contra falta de alimentos
A dramática crise de alimentos que já afeta países em desenvolvimento está impulsionando a maior utilização nos cardápios de um tubérculo ancestral: a batata.
Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, acaba de ser o primeiro a ordenar seus 500 mil militares a comerem batata, porque não é mais possível pagar os elevados preços de produtos como arroz, trigo e milho. O tubérculo não faz parte do menu tradicional no país, mas o comandante do Exército, general Moeen U. Ahmed, argumentou que era a solução mais barata e abundante.
Também o Peru passou a encorajar o consumo de pão contendo farinha de batata, ao mesmo tempo em que reduziu a tarifa de importação de trigo, mais caro.
A China, maior país produtor de batata do mundo, e a Índia, segunda colocada no ranking, planejam multiplicar a produção por razões de segurança alimentar.
Os países em desenvolvimento são importadores líquidos do tubérculo, mas isso pode mudar no curto prazo pela facilidade do plantio, que atrai mais agricultores, e pelo alto valor energético, que estimula o consumo.
"Com a penúria alimentar e preços que demorarão a cair, a batata é a opção para complementar a dieta em cada vez mais países", diz Nebambi Lutaladio, responsável pela área na FAO.
O preço do arroz, por exemplo, passou de US$ 300 para US$ 1.000 a tonelada em um ano. A FAO calcula que a fatura alimentar dos países pobres crescerá mais de 50% este ano e que a crise será longa, refletindo a negligência com que a produção agrícola foi tratada.
A batata é o principal gênero alimentício "não cereal" do mundo, e seu preço em geral depende do custo de produção local, não submetido às flutuações do mercado internacional. Em 2007, a produção foi de 320 milhões de toneladas, sendo 40% produzido pela China, Índia e Rússia. E aumenta em média 4,5% por ano.
O comércio internacional, de US$ 6 bilhões por ano, representa apenas 6% da produção por causa do custo de refrigeração. Esse comércio está migrando do produto fresco para o processado, mas sofre com a escalada tarifária. O consumo global médio é de 33 quilos por pessoa por ano.
No Brasil, a produção de 2007 foi estimada em 3,4 milhões de toneladas, com rendimento de 24 toneladas por hectare, ante 17 toneladas no resto da América Latina. Mas o consumo é pequeno, de 14 quilos por pessoa por ano, comparado a 24 quilos no resto da América Latina, 73 na Alemanha e 124 em Ruanda (Africa).
A batata é consumida nos Andes há cerca de 8 mil anos, e na Europa faz parte da história das crises de fome. Entrou no velho continente no século XVI por meio dos espanhóis, e a principio servia de comida para porcos e outros animais.
Na Alemanha, após um inverno rigoroso e ameaça de fome em 1756, Frederico, o Grande, baixou o famoso "Kartoffelbefehl", decreto obrigando a população a plantar e consumir o tubérculo, tornando-o desde então central na culinária alemã.
Mais tarde, um assessor de Louis XVI, na França, foi esperto para quebrar a desconfiança dos franceses: mandou plantar num grande terreno que ficou protegido durante o dia por soldados, para fazer crer que se tratava de algo raro. À noite, os soldados partiam e populares roubavam o produto. Depois, passaram a cultivá-lo.
A batata passou a ser tão importante na alimentação básica européia que na Irlanda, no século XIX, quando a produção foi dizimada por uma praga, houve enorme êxodo, com os pobres tomando o rumo dos EUA e os ricos o caminho da Argentina.
Pouco antes, em 1850, o celebre pirata inglês Francis Drake foi homenageado com uma estátua na cidade de Offenbach (Alemanha), por também ter levado batatas que encontrou no Chile para a Europa no século XVI. Em 1939, os nazistas explodiram a estátua, por não quererem homenagear estrangeiros.
Em novos tempos de crise, a ONU promove o Ano Internacional da Batata, vista mais uma vez como o "alimento do futuro".